quarta-feira, 29 de março de 2017

MEETING LISBOA :: O rock é um coração com fome

MEETING LISBOA :: Do amor ninguém foge

COMUNICADO ACERCA DA PUBLICAÇÃO DO DECRETO DO MILAGRE

No dia 23 de março de 2017, o Santo Padre recebeu em audiência Sua Eminência Reverendíssima, o Senhor Cardeal Ângelo Amato, S.D.B., Prefeito da Congregação das Causas dos Santos. Durante a audiência, o Santo Padre autorizou a Congregação das Causas dos Santos a promulgar o Decreto de aprovação de um milagre atribuído à intercessão dos Beatos Francisco e Jacinta Marto, crianças de Fátima.

A Postulação de Francisco e Jacinta Marto rejubila com a notícia, na certeza de que o exemplo dos dois pastorinhos que foram testemunhas da presença de Deus pelas mãos da Virgem Maria interpelará a Igreja a uma vida generosa e disponível a Deus pelo bem dos irmãos.

O consistório em que se agendará a festa da canonização está marcado para o dia 20 de abril de 2017.

Ir.ª Ângela de Fátima Coelho, asm
Postuladora

segunda-feira, 27 de março de 2017

40 dias pela vida

PLATAFORMA 40 DIAS PELA VIDA    25.03.17

Ontem esteve o dia todo preenchido com 11 estudantes da universidade Católica.
Um dos voluntários deixou-nos este testemunho

"Hoje a Igreja celebra a solenidade da anunciação. Hoje a mãe de Jesus, que é a nossa mãe, ficou grávida. Não era rica, não tinha televisão, frigorífico, carro, telemóvel, a casa provavelmente não seria um palácio, não havia água quente, a comida seria escassa, não havia wi-fi nem ecografias nem epidural, era adolescente e não tinha uma carreira.. quando soube que ia ser mãe, o marido até pensou repudia-la! Enfim, hoje diríamos que nao tinha "condições mínimas" para poder ser mãe. Mas, não só disse sim quando lhe perguntaram se queria ser mãe de Deus, como amou o seu Filho como nunca nenhuma outra mãe há-de amar o seu filho e o Filho amou-a como nunca nenhum outro filho há-de amar a sua mãe. Como Maria, tantas mães há que são amadas por Deus e queridas mesmo nas suas dificuldades.
Porque é que Maria disse "fiat", faça-se, e tantas mães dizem "não"? 
Porque so está em paz aquele que descansa em Deus, aquele que se abandona na Sua misericórdia e, assim, sabe não estar só. Quando não temos isto presente, facilmente entramos em pânico ao pensar que sozinhos vamos ter de resolver todos os nosso problemas o que é naturalmente impossível. No dia em que Nossa Senhora disse "faca-se em mim segundo a Vossa palavra" rezamos ao Pai por intercessão de Maria, para que as mães deste mundo sejam tocadas pelo amor de Deus e saibam dizer sim aqueles que trazem dentro de si, que pelo baptismo se tornarão, também eles, filhos de Deus."

Amanhã segunda feira precisamos voluntários das 13 ás 17 e terça feira das 14h ás 15h. Inscriçõe sff www.40diaspelavida.org
Tanto amanhã como terça feira teremos dois Sacerdotes (um cada dia) a celebrar Missa ás 13h na casa das Mãos erguidas. São todos bem vindos


sábado, 25 de março de 2017

Peregrinação a Fátima no Meeting Lisboa

O IMPREVISTO    25.03.17


domingo, 19 de março de 2017

19 de Março, dia de S. José


Um pai não educa porque já sabe mas porque também está a caminho. 

Pe. Duarte da Cunha



Interrompo o meu 'silêncio quaresmal' no dia do Pai. 
Neste primeiro ano sem o meu, preparei um presente de dia do pai, que gostava de vos dar a conhecer.

Como muitos saberão, o pai (Pedro Aguiar Pinto) fez uma primeira peregrinação a Fátima em 1996 e desde aí nunca mais deixou de fazer uma peregrinação anual, até 2016, quando o Senhor o chamou a Si no passado dia 11 de Outubro, a caminho de Fátima. 

Esta peregrinação tem uma história de mais de 30 anos, tem um método próprio assente no carisma do movimento Comunhão e Libertação e tem dado frutos não só na vida do pai, mas na de tantos peregrinos que a integraram ao longo dos anos. 

Soube pouco tempo depois da morte do pai que era seu desejo poder dar a conhecer a peregrinação na forma de uma exposição e por isso, no ano do centenário das aparições de Fátima, a exposição Peregrinação, parábola da vida poderá ser visitada no Meeting Lisboa no próximo fim-de-semana, de 24 a 26 de Março, no Campo Pequeno. 

O programa do Meeting está recheado de outros encontros, espetáculos e exposições que valem muito a pena, por isso não deixem de consultar o programa aqui.

Estará presente também um ponto de venda das Artes do Mosteiro, onde poderão ver e comprar as peças feitas pelas monjas de Belém retratadas este fim de semana nesta reportagem do DN

Bom Domingo a todos!
Inês Aguiar Pinto Dias da Silva

sábado, 18 de março de 2017

Peregrinação, parábola da vida

WWW.MEETINGLISBOA.ORG/NEWS

A peregrinação como parábola da própria vida é a proposta de Joana, Inês e Miguel para a V edição do Meeting Lisboa: uma exposição sobre a peregrinação anual de Comunhão e Libertação a Fátima.
A exposição "conta a vida da peregrinação, o que é uma peregrinação, como se relaciona com a vida, porque é que é bom peregrinar, porque é que é fundamental para qualquer pessoa fazer uma peregrinação por ano, sobretudo para quem vive em Portugal, o altar do mundo”, explica Joana.
A ideia de fazer esta exposição foi do Pedro, pai da Inês e que também esteve na organização durante vinte anos. Depois da sua morte, durante a peregrinação do ano passado, tanto a Inês como os amigos do pai não quiseram deixar passar o ano do Centenário das Aparições. Segundo Inês “a peregrinação a Fátima foi um dos primeiros gestos do movimento em Portugal”, por isso, a primeira parte da exposição “vai ser uma retrospectiva das primeiras peregrinações e de como é que a amizade cresceu a partir daí. Depois vamos entrar no que é que significa realmente peregrinar – falar do sacrifício, do cansaço, do silêncio e da oração. Pegamos nestes grandes temas que se vivem em cinco dias e tentamos mostrar a riqueza que são para as pessoas que peregrinam”.
Tudo a partir de testemunhos de peregrinos e de textos que têm servido de guia em cada ano. Num dos painéis da exposição está o testemunho de Conceição:
“Essa caminhada até Fatima, até Maria, trouxe-me uma necessidade de verdade. Percebi que a vida era mais a sério. Para mim foi um encontro com Cristo, não porque não acreditasse em Deus, mas porque naquele momento senti-o de uma forma diferente. Senti que era para mim, e por isso fiquei (no CL). Aqui encontrei amigos verdadeiros, que mesmo nos momentos de desânimo, confusão ou pecado, estão sempre prontos a darem-me a mão e a mostrarem-me por onde é o caminho. Com isto quero dizer que vocês são os amigos que quero ter para o resto da minha  vida”.
Sobre estes dias de preparação da exposição Inês diz: “para mim a coisa mais gira tem sido tornar-me mais amiga dos amigos do meu pai!”. E  Miguel, acrescenta: “parece que estamos em peregrinação quando no fundo é só a preparação de uma exposição!”


A reunião de preparação que interrompemos é em casa da Inês, numa quinta-feira à noite, e depois de um dia que já vai longo para todos… “se chegar ao fim da semana e fizer uma retrospectiva, foi uma semana que passou a correr. E as semanas passam sempre a correr. Ao passo que na peregrinação são cinco dias que não são fáceis, mas o tempo é vivido de outra maneira, a semana é sempre muito maior, porque há muito mais que fica dentro de nós”, conta Miguel.
“Eu neste momento tenho pouquíssimo tempo, mas mesmo que não consiga emitir muita opinião, adoro ler os textos todos que se estão a preparar e ver as fotografias antigas e pensar como é que a peregrinação era e como é hoje”, conta Joana, promotora da peregrinação há vinte anos. Comunicar a experiência da peregrinação no Meeting tem sido um desafio, um esforço que ao mesmo tempo descreve com leveza, porque, como acrescenta: “o que estou a gostar mais na preparação é de estarmos juntos!”.

Miguel foi a pé a Fátima pela primeira vez “para agradecer o facto de a minha filha mais nova ter nascido, porque esteve para não nascer”. Depois desta primeira experiência, deu-se conta de que “precisava muito mais de me converter do que aquilo que tinha consciência” e ali “encontrei pessoas que me fizeram perceber que aquele gesto anual era importante para a minha vida, portanto nos últimos doze anos fui sempre”. Do amor ninguém foge.

PROGRAMA MEETING LISBOA 2017

  Programa MLx 2017 by papinto on Scribd

Primeira peregrinação a Fátima do Pedro Aguiar Pinto



PRIMEIRA PEREGRINAÇÃO A FÁTIMA 
DO PEDRO AGUIAR PINTO COM A FILHA INÊS

SANTARÉM, 1996

Monjas de Belém: A nossa vida é um grito silencioso

18.03.17   DN

São irmãs de clausura. Vivem para a liturgia, para a oração e para o trabalho, entre ele a arte sacra que fazem, como a restante família monástica, espalhada por todo o mundo, de França à Argentina ou a Israel. Há hoje oito monjas, entre a casa dos 20 e a dos 60 anos, no Mosteiro de Nossa Senhora do Rosário, que ainda está a ser construído no Couço, Coruche. Duas delas guiaram o DN.
A meio do caminho de terra, os telemóveis ficam sem rede. Aqui e ali há uma placa que indica o caminho para o Mosteiro de Nossa Senhora do Rosário, na Herdade de Vale Côvo, Couço, concelho de Coruche. E lá está ele. Ao passarmos os muros brancos, avistam-se três homens que trabalham na fundação já visível da segunda fase de construção do mosteiro. Continuamos a subir e há apenas uma Renault 4L estacionada. Alta, é ideal para as Monjas de Belém, da Assunção da Virgem e de São Bruno se movimentarem, quando necessário, ao longo daquela espécie de deserto verdejante para onde se mudaram há quase quatro anos, vindas de Sesimbra.
Há uma pequena capela junto à zona indicada como "Clausura - Entrada reservada às irmãs" e, do outro lado, divisórias separam-nos dos contentores onde vivem algumas delas, visto que a zona de clausura já erigida tem apenas seis ermitérios. Elas são quatro espanholas, três portuguesas, e uma belga. Têm idades compreendidas entre os 20 e os 60 anos. Há ainda a irmã prioresa, que vive entre este mosteiro e outro em Espanha.

Não se ouve absolutamente nada, até que duas delas aparecem, na casa dos 30 anos, vestidas nos seus hábitos brancos, de capuz sobre a cabeça, já coberta por um véu azul. Preso ao hábito está um rosário feito de lã branca, típico do Oriente - de onde vêm os primeiros monges - cuja sabedoria rege muito a forma de vida desta ordem fundada, em 1950, em Roma, quando da proclamação do papa Pio XII do dogma da Assunção da Virgem. A primeira formação surgiria no ano seguinte, em França. Hoje existem 28 mosteiros em todo o mundo (além daquele que está a ser construído no México), a maioria deles em França, mas também em Israel, Argentina, Lituânia, Canadá, ou Polónia.

Estas que aparecem são as duas irmãs atualmente encarregadas pelo acolhimento no mosteiro. Às restantes, irmãs de solidão, só as veríamos ao cair da noite, na oração de Vésperas, dentro da capela, depois de o sino soar. Tratamo-las pelos nomes que se tornaram seus quando fizeram votos - e que tentam não repetir nas cerca de 700 pessoas que constituem a família monástica -, mas preferem não ser identificadas nem por esse. Tal como não querem que os seus rostos apareçam nas fotografias, explicando que lhes parece que, sem os mostrar, as fotografias são mais representativas de quem são.

São irmãs de clausura. Não vêem televisão, nem ouvem rádio nem consultam a internet. "Recebemos alguns jornais ao domingo, para estarmos minimamente informadas do que se passa no mundo, na Igreja, no país", diz a irmã Maria (nome fictício). "Um monge dizia que há quem tenha o carisma e a missão de falar de Deus aos homens, os monges têm a missão de falar dos homens a Deus. A nossa forma de participar no mundo é a oração. Da oração comunitária [entre as monjas] faz parte uma oração de intercessão forte, todos os dias, concreta, pelo mundo e pelos homens", continua.

Perguntamos se não há nelas a impotência de um espectador perante o mundo. Sorriem uma para a outra. "Nós vivemos nesta certeza de que Deus é amor. E ao mesmo tempo na certeza de que o mundo passa por tempos de grande sofrimento. A nossa missão é a oração e a oferenda da nossa vida, do nosso trabalho, do nosso cansaço, e a compaixão: ter no nosso coração todos os que sofrem. Claro que nos sentimos chocadas..." Isabel (também nome fictício) completa: "Claro. A quantidade de pedidos de oração que temos por doenças é impressionante."

Estão longe de se verem como espectadoras passivas: iam tornando-o cada vez mais claro à medida que a tarde avançava. Não que sentissem a necessidade de o fazer. Se assim fosse, não teria sido precisa uma primeira visita ao mosteiro, para combinar a possibilidade de uma reportagem, resposta pela qual seria preciso esperar. Mas ali estávamos. A certa altura, a irmã Maria lançaria: "É verdade que nós somos irmãs de clausura e não recebemos o carisma de falar aos homens de Deus. O nosso testemunho principal passa pela nossa vida que diz: Deus é. A partir do momento em que há mulheres e homens que deixam tudo para viver a vida toda num mosteiro e aprofundar cada vez mais a sua relação com o Senhor, então a nossa a vida é um grito silencioso que diz: Deus é."

Trabalho e arte sacra: traves mestras

As duas irmãs conduzem-nos a uma pequena sala, onde a primeira mostra o ofício que é um dos seus mais fortes traços característicos para o mundo exterior: arte sacra. O ateliê está a fazer as vezes de armazém, justificam; já que, embora ali vivam desde 2013, a maioria das instalações ainda é provisória. A segunda fase de construção começou em fevereiro: estrutura que permitirá acolher visitantes, as suas próprias famílias, que as podem visitar uma semana por ano, e quem queira ali fazer retiros. Seguir--se-á a construção de uma igreja e a conclusão do espaço dedicado às irmãs. Por agora, à capela e às seis celas acrescem apenas um refeitório e uma cozinha.

Na pequena sala, Maria, encimada por um ícone da Virgem e do Menino Jesus, trabalha. Pinta a moldura de madeira de um ícone, imagem que as irmãs portuguesas imprimem em seda, e que depois emolduram. De seguida, mostra como decoram os círios pascais, trabalhando o estanho, depois aplicado neles em pequenas faixas com cruzes, por exemplo. Fazem ainda terços, pagelas, pequenas bolsas, compotas. Tudo é feito em oração.

As obras das irmãs portuguesas juntam-se assim às do mundo inteiro: às peças de âmbar feitas na Lituânia, às imagens de madeira e dolomite das irmãs francesas, ou às sandálias e ao incenso feitos pelos irmãos também de França, um dos três mosteiros de homens da Ordem, todos fora de Portugal, e onde atualmente há um jovem português a começar o seu percurso, além de um monge luso-francês. Quanto às irmãs portuguesas, estão também em mosteiros de França e Espanha e constituem um grupo "que não chega a dez irmãs", adianta a irmã Maria.
Vindas de todo o mundo, as peças estão à venda na loja Artes do Mosteiro, que existe em Lisboa e Fátima (ver entrevista), equiparada pela exclusividade de peças das Monjas de Belém apenas às que existem em Paris e em Lourdes. "É o nosso ganha-pão", diz Isabel acerca do artesanato. Cobre "os gastos de gasóleo, de luz, saúde... Mas para a construção do mosteiro não chega, contamos sobretudo com os donativos. Os dois grandes ateliês da nossa família são de madeira e dolomite, mas não estão ligados [exclusivamente] a nenhum mosteiro. São um pouco o sustento de toda a família, ajudam sobretudo os mosteiros que estão em países mais pobres, que têm menos ajuda diária para a sua vida."

Um mosteiro num lugar comunista

O terreno foi-lhes oferecido por um particular. Vindas de Sesimbra, onde durante anos tentaram, sem êxito, obter a autorização para a construção de um mosteiro quase desde que ali chegaram têm recebido ajuda da população dos arredores. Sem que nada lhes fosse pedido, as pessoas organizaram-se em grupos que, rodando ao longo dos meses do ano, levam ao mosteiro os mantimentos de que a comunidade precisa, para que esta não tenha de abandonar o seu deserto. Do Couço, freguesia onde desde 1975 o Partido Comunista ganha as eleições, vão aparecendo cada vez mais pessoas e garantem as monjas, "tem-se desenvolvido uma relação de colaboração e amizade". Todavia, num restaurante no centro do Couço, o rapaz que serve às mesas não faz ideia de que, a alguns quilómetros, há um mosteiro. "Monjas? Não, nunca ouvi falar."

"O primeiro contacto aconteceu com os sacerdotes de Mora, do Couço... Aperceberam-se de que nós tínhamos necessidade de uma ajuda concreta, de pintores, carpinteiros, tudo. Fizeram o apelo na sua paróquia e eles foram aparecendo. Do Couço também vêm por curiosidade, porque estamos na sua terra. E de Coruche. Trazem-nos coisas da sua horta", conta a irmã Isabel. Na primeira vez em que as visitámos, havia carrinhas e cerca de 20 idosos de um centro de dia de Coruche que visitavam o mosteiro. Três mulheres sentadas junto ao contentor onde está instalada a exposição de artesanato do mosteiro diziam a Maria: "As irmãs estão aqui no Paraíso." "Pois estamos, porque estamos com Jesus", sorria a monja.

Estamos à frente desse mesmo contentor, que como aqueles que servem de ermitérios está revestido a cortiça, para suavizar as temperaturas que atingem os 45 graus no verão e que no inverno chegam a congelar a água nas canalizações até à tarde. O trabalho artesanal que as monjas fazem tem para elas uma importância muito distante daquela que terá um emprego para quem trabalha para pagar as suas contas e nada mais. "Partilhamos com todos os homens a necessidade de trabalhar para ganhar a vida. Mas, para além disso, a arte sacra, o trabalho que nasce da oração, desta relação com Deus, é expressão da beleza e do amor que é Deus, que é bom e belo." A irmã Maria continuaria ainda: "O trabalho manual ajuda muito ao realismo, ajuda-me a conhecer-me como criatura de Deus, concreta."

Esta carga que atribuem ao trabalho não está, todavia, circunscrita à arte sacra. Diz respeito também a "cada couve da horta, cada pão e cada bolo [que saem do seu forno], cada batata cortada", para que cada um deles "dê glória a Deus". O trabalho é habitualmente feito na solidão. Maria recorda numa quase gargalhada os seus primeiros tempos no mosteiro, há quase dez anos. Fechada no seu ermitério, pediram-lhe que ali fizesse doce de grão. Ela, que nunca o tinha feito, resolveu pôr a demolhar cerca de oito quilos, sem saber que o tamanho deste aumentava. Rodeada na sua cela por uma enormidade de grão, conta divertida que rezou ao seu "anjo da guarda para que alguém passasse". Até que "apareceu uma irmã".

Na cozinha e na roupa, por exemplo, as monjas vão alternando as responsabilidades. A carga de trabalho é normalmente de "três a cinco horas por dia", contudo, varia de irmã para irmã, do seu "caminho" e da fase dele em que estão. A irmã Maria, por exemplo, esteve seis anos em solidão. A transição que a seguiu? "Foi natural", responde a sorrir. O caminho é traçado com uma outra irmã que as orienta e a que chamam o seu "anjo". Além do trabalho, que não fazem ao domingo nem à segunda-feira, dia de retiro, dedicam "habitualmente pelo menos uma hora e meia por dia ao estudo" e "também no mínimo uma hora e meia de oração pessoal, mais o tempo de oração comunitária". Repetem: o seu principal ofício é a oração e a liturgia, a missa matinal, às 8.00, e as Vésperas, ao fim do dia.

A única refeição que tomam em conjunto é a de domingo, todas as outras são recebidas e tomadas na cela, à exceção de alguns dias de solenidades. "O silêncio não é falta de comunhão, pelo contrário", explica a irmã Maria.

É ao domingo também que saem para "caminhar juntas" num "encontro fraterno": "Cantamos, falamos também do Evangelho, do tema da Quaresma, ou de algum tema que em comunidade estejamos a aprofundar. É um tempo em que rimos, conversamos, criamos comunhão. E depois a liturgia, onde a comunidade cresce mais como corpo."

Perguntamos-lhes o que cantam nos encontros dominicais. A irmã Maria responde que gostam de adaptar passagens do Evangelho a músicas tradicionais. Pedimos-lhe se podem mostrar. "Querem uma música tradicional ou um fado?" Música tradicional. Fecham a porta para não perturbar as irmãs de silêncio, que estão dentro dos seus contentores, ali perto. E começam a cantar uma passagem do Evangelho na melodia de Milho Verde, de José Afonso. A irmã Maria marca o ritmo na perfeição. Não é de admirar. Formada em Arquitetura Paisagista, trabalhava em música antes de descobrir a vocação. "Estudei clarinete e depois comecei a tocar também outros instrumentos ligados à música tradicional e à música antiga", recorda.

Cresceu como católica, mas, a certa altura, sentiu "que tinha de responder "sim" ao Senhor, numa vida consagrada, ainda sem saber como." Um sacerdote ajudou-a, convidou-a a conhecer as Monjas de Belém. "Não sabia que existiam monjas em Portugal. A vida monástica é bastante desconhecida no país. É impressionante como há quase um esquecimento. "Mosteiro" lembra-nos o dos Jerónimos, o de Alcobaça..." Não existe, aliás, um levantamento do número de pessoas que hoje vivem em clausura em Portugal, nem da evolução deste ao longo dos anos. Essa informação não está disponível no Anuário Católico e, até agora, a Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios também não a tem, soube o DN junto da mesma.

Depois de um retiro vocacional em França, Maria começaria a "Escola de Vida" aos 27 anos, já em Portugal. "Escola de Vida" é o nome dado à primeira fase do percurso nesta família monástica, que teve como primeiro oratório um estábulo evocando a gruta onde nasceu Jesus - daí terem "Belém" no nome.

A irmã Isabel conta que quando fez o primeiro retiro tinha 23 anos e acabara de começar a trabalhar. Era designer gráfica. Cerca de cinco anos depois, em 2005, começaria a "Escola de Vida", que antecede o noviciado. "Há que aprender realmente uma vida nova, que não conhecemos", diz. No fim desse tempo, que vai de seis meses a dois anos no máximo, "a rapariga pode pedir o hábito". Segue-se "a formação de estudo, de vida, do trabalho, o aprofundamento da relação com a palavra de Deus e com a pessoa de Jesus Cristo. Depois pede para fazer os primeiros votos, por cinco anos, ao fim dos quais chega à profissão perpétua." Isabel fê-la há um ano, Maria deverá fazer a sua dentro de dois anos. O dia dos votos temporários é o da "grande festa, no fundo é o dia do casamento", explica a irmã Maria. "Convidamos sacerdotes, família, amigos, há uma grande refeição. Depois os votos perpétuos são feitos na intimidade, está o bispo e a comunidade, mais ninguém."

E o tempo, custa a passar naquele mosteiro que, apenas a alguns quilómetros do Couço, parece estar longe de tudo? "Ai não, passa depressa", diz Maria. "Se a vida é vivida com fidelidade. Se me esqueço de porque é que estou aqui, há esse perigo", completa Isabel. E novamente respondem quase em dueto, quando perguntamos se sentem como renúncia o que deixaram fora dos muros brancos que separam o mosteiro do exterior.

Maria começa: "É uma renúncia no sentido em que..." "Não deixámos coisas de que não gostávamos", remata Isabel. E Maria: "A renúncia não é masoquismo, acontece porque há um amor maior." "Também não é um ato heroico. Parece natural. Para quem não tem o chamamento parece uma violência." "Não quer dizer que não haja tempos de provação, claro, como na vida matrimonial. Se a cruz não está presente é porque vivemos numa ilusão. Há momentos de prova, de dor, e esses são momentos de crescimento, de comunhão", termina Maria.

Cada ermitério uma capela

Todos os ermitérios têm a mesma estrutura. À entrada, a zona a que chamam "Ave-maria". Há um ícone da Virgem, por vezes um genuflexório. "Ao entrar, rezamos sempre uma ave-maria, recordando-nos de que não entramos propriamente para o nosso quarto, para a nossa minicasinha, mas num espaço feito para que possamos crescer na intimidade com Deus; quase como se fosse uma capela. Toda a vida da monja na cela é uma liturgia", explica a irmã Isabel, acrescentando: "A parte principal é o oratório". Há depois a chamada "Zona da Vida", com uma pequena cama e uma secretária para as refeições; outra, com vista para o oratório, onde a monja estuda; por fim, o jardim. "Uma zona suficientemente grande para que a irmã possa fazer a ginástica diária. A condição física faz parte da ascese monástica: o corpo é um instrumento ao serviço da oração", diz a irmã Maria.

O sino toca, a chamar para as Vésperas. Resta pouco tempo. Despedimo--nos. Mas antes pedimos que nos contem rapidamente a história da chegada a Portugal desta família monástica. "As duas primeiras irmãs, uma francesa e outra espanhola, vieram em 2001. Ficaram primeiro num seminário, depois numa caravana", conta Maria, apressada. Passariam depois para as instalações da Quinta do Calhariz, em Sesimbra, antes de irem para o Couço, que pertence à diocese de Évora. "Despedimo-nos já, depois das Vésperas vamos ficar em adoração", explicam.

Entramos na capela. Já lá estão as oito, no cadeiral. O canto, seja no Pai-Nosso ou em Kyrie Eleison (Senhor, tende piedade), é cristalino, afinado, harmonioso. Pedem "pelos que viajam, pelos doentes, pelos que sofrem, pelos prisioneiros", pedem "tempos de paz". No fim das Vésperas, quando toca o sino, prostram-se no chão, as mais novas como as mais velhas. Acabamos por ficar para a oração comunitária, que habitualmente é feita em silêncio. Naquele dia, que seguiu a Quarta-Feira de Cinzas, começo da Quaresma, foi feita em voz alta. Frases soltas são lançadas do cadeiral, intervaladas com a leitura do Evangelho. Frases como: "Que ao fechar a porta do meu quarto não feche a do meu coração, mas, ao contrário, a escancare." Chamam, cada qual na sua língua: "pai", "père" ou "padre".

Passaram duas horas desde o começo das Vésperas, já é noite cerrada. Lá fora, não nos cruzamos com nenhuma das irmãs de silêncio. Apenas Maria e Isabel. A pergunta é pueril: há algum ensaio prévio para as frases lançadas por cada uma na oração, todas elas coordenadas e sem atropelos? Respondem que não, é oração espontânea, dizem que é também assim que se vão conhecendo e crescendo como família.

Joana Queiroz: "Quando vi as peças deu-me um baque no coração"

18.03.17   DN

Há dez anos, as Monjas de Belém fizeram-lhe um pedido que não pôde recusar. Abriu a loja Artes do Mosteiro, em Fátima, e a esta seguir-se-ia a de Lisboa. Joana dirige a única loja do mundo que não pertence à ordem monástica, mas que vende peças feitas pelos seus mosteiros de todo o mundo.

Como conheceu as Monjas de Belém?
Eu queria mudar de emprego. Tinha um emprego por conta de outrem, como ainda hoje tenho num escritório. Uma amiga minha que também tinha o mesmo desejo, a Conceição Guerreiro, falou com a irmã prioresa, que disse: "Já sei o que é que vocês vão fazer. Nós precisamos de uma loja em Fátima." Ela veio ter comigo e eu disse: "Tu achas que eu já faço poucas coisas para a Igreja? Vamos lá ver [as peças], mas digo-te já que não vale a pena a insistência, porque eu quero procurar um negócio rentável." Na altura tinha 48 anos, agora tenho 58. Quando eu vi as peças deu-me um baque no coração. Pensei: "Estão a pedir-me isto a mim e eu estou a dizer que não? Não devo estar boa da cabeça."

Como é a margem de lucro que consegue com as peças?
As peças têm uma margem baixíssima, permitem manter a loja aberta. Somos a única loja no mundo inteiro em que há um esforço económico fora dos mosteiros. Há uma loja em Paris, uma em Lourdes e as lojas pequenas dos mosteiros.

Começou logo a vender peças de todo o mundo?
Comecei por ter as peças dos mosteiros que mais vendem, as peças de madeira e dolomite. Depois comecei a contactar os outros mosteiros. Há Saint Désert [em França], que faz livros, pagelas, postais e tudo isso, tem panos de seda impressos também, e esculturas de pedra porosa. Da Lituânia vem o âmbar, a marfinite é de Mougères [França], algumas medalhas de marfinite vêm da Argentina, Sigena [em Huesca, Espanha] faz loiça com desenhos e alguns ícones pequeninos... Depois, os irmãos de França que fazem a pele, as alfaias litúrgicas, o incenso, as sandálias. Em Israel também contacto um mosteiro de irmãos. Com a guerra - inclusivamente atiraram rockets aos muros das irmãs - vieram muitos irmãos para a Europa, por questões de segurança. Agora estou a comprar incenso a Grenoble, porque é dos irmãos que o faziam em Jerusalém. Mas com os irmãos foi mais difícil, porque atendem a horas muito específicas. A forma de comunicar é a tradicional. E depois, eu trabalho, é complicada para mim esta ligação.

Quem são os principais clientes da loja?
Católicos praticantes sobretudo, e padres do país inteiro: compram crucifixos grandes, Nossas Senhoras, presépios, agora na Páscoa círios... Tentamos que os padres percebam que ter esta arte sacra nas igrejas, que é feita a rezar, é uma coisa completamente distinta de ter uma coisa feita na China, ou nas Filipinas.

Já visitou vários mosteiros, de Israel a França. De um para o outro, sente-se a noção de família?
Sem dúvida. Entrar num mosteiro, qualquer que seja, e ver que as irmãs vivem uma clausura de alegria, de proximidade ao Senhor, e a maneira como nos recebem... Às vezes penso assim: porque é que eu com esta idade, que posso não viajar muitos mais anos, não quero ir para outros lados? Mas a minha vontade é mesmo de visitar os mosteiros.

quarta-feira, 15 de março de 2017

30 de Março | The Ending of an era

O CEEHC (Centro Europeu de Estudos de História Constitucional) tem o gosto de comunicar que no próximo dia 30 de Março, RUSSELL R. RENO, Director da revista americana First Things - America's most influential journal of religion and public life, proferirá, em Lisboa, a conferência “THE ENDING OF AN ERA”.

Dia: 30 de Março de 2017
Hora: 18h30
Local: Sala 007 da FDUNL (Campus de Campolide)
Entrada livre





terça-feira, 14 de março de 2017

O DIREITO A DESCONECTAR-SE

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA       09.03.17

Estamos mais próximos dos desconhecidos e mais desconhecidos dos que nos são próximos
 
Talvez estejamos apenas numa encruzilhada e a agulha da bússola ainda não se tenha estabilizado na indicação de um norte, e tudo isto seja normal. Talvez seja só uma questão de tempo e daqui a nada vejamos mais claro. Contudo, seria iludir-se não reconhecer até que ponto vivemos um daqueles momentos em que não conseguimos dizer ao certo para onde caminhamos — nem como sociedades nem como indivíduos. E no aglomerado intrincado dos problemas que fazem parte da equação sobressai, de forma cada vez mais nítida, o uso das tecnologias e o custo humano que lhe está associado, em que ainda refletimos pouco. O diagnóstico é bem patente: a par dos elementos indiscutivelmente positivos que a comunicação digital permite (incremento da comunicação humana, agilização dos processos de trabalho, possibilidade de conectar-se em qualquer lado e em qualquer momento...), descobrimo-nos a viver entre uma dependência forçada e uma hipnose, exaustos, mas incapazes de desconectar, capturados pela rede, devorados pela obsidiante solicitação da única verdadeira cidade que nunca dorme. O e-mail, o Whatsapp, o Facebook, o Twitter, o Instagram alteraram de tal maneira os nossos quotidianos, tornaram-se de tal modo preponderantes e invasivos, que a pergunta que se coloca é se não estarão também a alterar-nos a nós mesmos. O filósofo Bernard Stiegler, por exemplo, tem alertado que o uso generalizado da web produz um efeito de sincronização em massa, como se passássemos a viver num continuum que dispensa faculdades singulares como a memória e a consciência, conduzindo-nos a modos de existência cada vez mais estandardizados e cada vez menos livres.
 
O sucesso das novas ferramentas tecnológicas deve muito ao facto de encaixarem bem com a natureza humana. Para nós humanos a comunicação é vital, somos seres sociais, precisamos de companhia, valorizamos a relação e a troca. Além disso, somos curiosos, girovagamos, reagimos com agrado a estímulos, realizamo-nos como antenas de sinais de vida, dos quais somos emissores e recetores ininterruptos. Mas o formato dos próprios dispositivos vem também ao nosso encontro: foi estudado e testado em milhões de usuários até alcançar o design intuitivo que tem hoje, capaz de provocar uma adição mais imediata e persistente no tempo. Por alguma razão, surge esta síndrome da “hiperconectividade” que nos condiciona a todos, indiferentemente de idades e contextos: mensagem chama mensagem, e com uma urgência que se sobrepõe a tudo; os pais atendem mais vezes o telemóvel do que os filhos pequenos que vivem com eles; os amigos não conseguem dizer uns aos outros, “gosto muito de ti, mas não vou responder a todos os teus whatsapps”; os namorados não sabem amar-se sem a mediação das redes sociais; gasta-se um tempo precioso a responder, replicar, retorquir tontices por monossílabos, alimentando a ilusão de que diante de um ecrã, por pequeno que seja, nunca se está só. Mas ali estamos sós mais vezes do que supomos. À força de estarmos conectados, numa disponibilidade indistinta e sem horário, acabamos por desconectar com as pessoas a quem mais queremos e por perder inclusive a conexão connosco próprios. Estamos mais próximos dos desconhecidos e mais desconhecidos dos que nos são próximos. São muitas as atitudes que podemos tomar para diminuir saudavelmente o nosso grau de hiperconexão à net, reconquistando espaços de qualidade, de pensamento, reflexão, de governo de si, de partilha com os outros ou de necessário repouso. A primeira atitude, porém, é afirmar o direito a desconectar-se.

'She Decides'

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COMUNICADO | Com o nosso dinheiro não

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segunda-feira, 13 de março de 2017

40 dias pela vida | Diário

Dias 2, 3 e 4 de Março

Na quinta-feira dezenas de mulheres entraram para abortar e muitos turnos de oração não foram preenchidos.
Deixamos dois testemunhos de dois jovens que foram rezar ontem e hoje:

"Fui sexta feira às 17h lá rezar e comecei por rezar lá fora. Por acaso nesse dia, uma velhinha simpática que encontrei na Missa tinha-me dado uma oração final de uma via sacra que tinha feito há pouco tempo. Tirei o papel do bolso, a oração chamava-se: ó cruz de Cristo. Pareceu-me oportuna dado o sítio onde estava. Sentado no degrau a olhar simultaneamente para o papel da oração e para a clínica, rezando sobre a Cruz de Nosso Senhor, reparei que a Rua da Mãe dÁgua cruza com a travessa do Rosário fazendo precisamente a forma de uma Cruz. Aquele lugar era o próprio do Calvário e visto de cima a Clínica no canto superior esquerdo do centro da cruz era a chaga de Jesus aberta pela lança, talvez a chaga que mais sangue deitou... Entristecia-me aquela imagem, mas nada é por acaso e o facto da Travessa se chamar Travessa do Rosário convidou-me, acabada a oração e convencido pelo frio e pela chuva, a retirar para dentro da capelinha das Missionárias das Mãos Erguidas e rezar um Terço pelo fim do aborto e, para na medida da minha mísera oração, consolar Jesus escondido no sacrário que tanto sofre com a morte dos inocentes. Hoje sábado, voltei lá e rezei mais um terço, desta vez na companhia do meu pai, espero manter esta rotina de oração que nos faz muito bem e que alegra tanto a Nosso Senhor."

"Boa tarde! Estive 1h15 em frente a Nosso Senhor a rezar pelas crianças vitimadas, pelas suas mães e pais, por todos aqueles que defendem e promovem este flagelo e ainda por todos nós que o combatemos! Tanto à entrada como à saída conversei com pessoas da casa e outros voluntários que me fizeram abrir mais os olhos para o drama social e moral em que vivem ou passam a viver as mulheres que são empurradas ou voluntariamente impedem um filho de nascer. É assustador e arrepiante olhar para as janelas gradeadas da cave da Clínica onde milhares vão perdendo a vida e a alma. Intensificarei as orações diárias pelo fim do aborto em Portugal e no Mundo inteiro. E tentarei ir pelo menos uma vez por semana rezar no âmbito desta santa e louvável iniciativa!"

sábado, 11 de março de 2017

Carta Apostólica: A Dignidade da Mulher



CARTA APOSTÓLICA
MULIERIS DIGNITATEM
DO SUMO PONTÍFICE
JOÃO PAULO II
SOBRE A DIGNIDADE
E A VOCAÇÃO DA MULHER
POR OCASIÃO DO ANO MARIANO





Veja a referência online aqui: 
http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_letters/1988/documents/hf_jp-ii_apl_19880815_mulieris-dignitatem.html

Pais extraordinários e incompetentes

INÊS TEOTÓNIO PEREIRA   11.03.17   DN

A vantagem de se ter muitos filhos é que nunca chegamos a saber se somos pais capazes ou não, se temos mãozinhas para tocar a guitarra. Quando a amostra é reduzida a apenas um ou dois filhos, podemos cair no erro de concluir que somos uma desgraça porque eles fazem tudo ao contrário ou que somos geniais porque eles superam todas as expectativas. Com esta amostragem as conclusões são tão fidedignas quanto uma sondagem martelada por um partido. Isto porque nós achamos que os nossos filhos são um reflexo do nosso desempenho. Tipo causa-efeito - sendo nós a causa. Errado. Quando se tem muitos filhos percebemos que esta formula lógica não diz nada sobre coisa nenhuma. Basicamente não tem lógica. Com uma amostra mais alargada, a ciência desaparece e percebemos que é impossível aferir a nossa qualidade pela qualidade dos nossos filhos. Os meus filhos são uma espécie de salada de frutas de virtudes e defeitos. E pior: cada um tem a sua dose e cada dose é única. Apesar de terem todos a mesma herança genética e estarem sujeitos às mesmas regras de educação, parece que foram recolhidos nos quatro cantos do mundo aleatoriamente. É estranhíssimo. Tenho filhos que ainda não descobriram como se repõe o rolo de papel higiénico e outros que se divertem a arrumar a cozinha. Também tenho histórias que ilustram como conseguir bons resultados escolares apesar dos ministros da Educação e outras de objetores de consciência a qualquer tipo de metas ou projetos educativos. Tenho filhos persistentes e sonhadores, ambiciosos e idealistas, racionais e criativos, faladores e reservados, uns que detestam bacalhau e outros que adoram crepes com espinafres. E eu, no fim do dia, sou uma espécie de cata-vento. Sou seis mães ao mesmo tempo. Imaginem a vida de Marcelo, que passa os dias a dizer coisas diferentes conforme está com o primeiro-ministro, os parceiros da geringonça, a oposição, os banqueiros, os sindicatos, as associações ou a senhora da farmácia (tudo em nome do consenso e da paz social, claro). Um inferno. Pois é a minha vida. Para uns eu sou uma mãe excelente porque não chateio, para outros sou péssima porque não chateio. Consigo ser uma mãe extraordinária porque tenho filhos bons alunos e ambiciosos ou uma mãe incompetente por causa dos objetores de consciência que querem levantar a bandeira branca à Físico-Química e assumir a derrota contra os seus exércitos de fórmulas. Se há uma boa razão para ter muitos filhos é esta: nunca chegamos a saber se somos bons ou maus pais, por isso concentramo-nos apenas em não fazer asneiras. E isso quase que chega.

Assaltos e disparates

JOÃO CÉSAR DAS NEVES    11.03.17     DN

O Banco de Portugal (BdP) dificilmente sairá incólume desta trovoada financeira. A autoridade monetária justifica-se com os limites da lei e o facto de as fraudes ultrapassarem as funções de supervisão, caindo na alçada da polícia. Mas, se os argumentos são válidos, mantêm dúvidas acerca da sua atenção, diligência e complacência. Mas, se as críticas ao regulador são razoáveis, têm de ser coerentes e sensatas, sem baralhar temas ou cair em contradições.

O governador Carlos Costa começou por ser severamente criticado por ter resolvido o BES, criando uma crise desnecessária. Agora vê-se violentamente atacado por não o ter feito mais cedo. Primeiro é o vilão por se opor a Ricardo Salgado, depois surge como seu cúmplice num roubo ao país. Ou foi conivente com os abusos do Grupo Espírito Santo, e nesse caso não se entende por que razão fechou o banco, ou foi severo demais na solução, e nesse caso não pode ser suspeito de negligência.
O que isto mostra é que estas questões são muito profundas, complexas e intrincadas, sem respostas evidentes, não podendo ser tratadas da habitual forma leviana e emotiva. A SIC apresentou nos dias 1 a 3 de Março uma "grande reportagem" sobre o tema, anunciando dados explosivos, fornecidos por uma "fonte mistério", identificada como funcionária veterana do supervisor. Mas, se o material, que aliás nunca foi adequadamente apresentado, era valioso, o trabalho jornalístico foi deplorável.
As informações fornecidas exigiam um esforço longo e intenso de análise, para avaliar a sua relevância. Era preciso compreender o quadro jurídico do processo, o funcionamento concreto da supervisão, a relevância dos detalhes, como se apresentavam na altura, antes de se descobrir o que hoje se sabe. Só que isso exigia muito trabalho especializado, nos campos legal, administrativo e financeiro. A SIC preferiu criar uma enorme encenação, misturando factos velhos e laterais, esses bem conhecidos e documentados, para fingir que tinha algo de novo e relevante. Afinal o espavento mediático nada acrescentou ao que se sabia há anos, nomeadamente no excelente relatório da comissão parlamentar de inquérito ao BES, de Abril de 2015.

O suposto material "explosivo" eram memorandos e mensagens fornecidos por funcionários do Banco, sempre qualificados no programa como "zelosos". Mas pareceres de serviços acerca da remoção da idoneidade bancária não constituem necessariamente a posição jurídica do regulador, tal como relatórios de concorrentes (BPI) acerca da solidez do BES, mesmo se esclarecedores, não representam prova admissível juridicamente. O crédulo jornalista confunde opiniões com factos; informações com provas, sem conseguir demonstrar a pertinência dos documentos.

Para disfarçar essas falhas, faz grande alarde em aspectos laterais, indiscutivelmente horrendos, mas antigos e bem conhecidos: lavagem de dinheiro angolano, problemas no GES, lesados do papel comercial. O aparato exagerado e tolo envolveu um castelo, alheio ao assunto, e a encenação de pesquisas no precioso espólio setecentista da biblioteca do Convento de Mafra. O jornalista até foi ao Dubai e a Londres, para descobrir que lá há prédios altos, pois nada trouxe de relevante.

Vários elementos são patéticos. Por exemplo, o Dr. Silveira Godinho aparece envolvido no caso sem qualquer acusação concreta, para lá de ter participado no governo, BdP e BES, o que faz dele apenas um bom profissional. O facto de ser casado com a curadora do palácio onde tomou posse dificilmente é crime. A "coincidência", tão empolada no último episódio, de os 5,7 mil milhões da garantia de José Eduardo dos Santos serem iguais ao buraco do BESA, e ao prejuízo do "banco mau" que resultou da resolução, só poderia significar que as perdas do BES se concentraram em Angola, ficando os portugueses incólumes. Como isso é evidentemente falso, como o próprio programa documenta, fica a dúvida se o jornalista chegou a perceber aquilo que anuncia com ar tão misterioso e insinuante.
A reportagem tem um propósito declarado: pôr ao mesmo nível o polícia e o ladrão, fingindo que falta de actuação preventiva é tão grave quanto o crime. Nunca se diz o que se deveria ter feito, qual a solução adequada, que custos teria essa alternativa ignota. Limita--se a apresentar Carlos Costa como o vilão, apesar de ter sido ele quem tomou a dificílima decisão que solucionou o caso.

A notícia, contundente na forma e vazia de conteúdo, surge no preciso momento em que se discute a nova administração do BdP e há biliões em jogo na venda do Novo Banco. Pior, ela inclui-se numa guerra aberta entre governo e autoridades independentes de controlo, como o Banco ou o Conselho das Finanças Públicas. Quando responsáveis de órgãos de vigilância democrática são sujeitos a barragens de insultos e pseudoinvestigações, se quisermos ser conspirativos e suspeitosos, podemos perguntar, com a cara marota da reportagem da SIC: será coincidência?

sexta-feira, 10 de março de 2017

Fátima por... João César das Neves

FAMILIACRISTÃ.PT       10.03.17


Fátima entranha-se


Não me lembro quando me confrontei pela primeira vez com a mensagem de Fátima. Desde pequeno, como católico português, vivo à sua sombra. Nascido na Terra da Santa Maria e no 40.º aniversário das aparições, elas fizeram parte da minha vida desde sempre.



Do que lembro foi da luta que essa mensagem gerou em mim. É que a Senhora tinha pedido para rezarmos o terço todos os dias, e quando era jovem tinha muita dificuldade naquela longa repetição que me parecia sem sentido. Eu e o terço tivemos uma guerra demorada e dramática, com muitas fases e episódios, que ele acabou por ganhar, quando eu já era crescidito. A fidelidade foi vencendo o enfado, mas só em adulto, sobretudo através da devoção de São João Paulo II, consegui compreender e aderir ao sentido e beleza dessa oração.

Os acontecimentos de Fátima, e aquilo que a Senhora tinha vindo dizer ao mundo nesta terra do fim do mundo, era algo que eu conhecia e meditava, mas foi preciso um acontecimento particular para Fátima chegar realmente ao centro da minha vida espiritual. Vou contá-lo, não porque o considere milagroso ou sequer especial, mas para testemunhar os seus efeitos sobre a minha relação com as aparições, como me pediram.

A 9 de maio de 2002 fui convidado pelo Pe. José Maria Cortes para fazer uma conferência, parte da preparação da visita da Imagem Peregrina à paróquia de São Pedro de Alverca do Ribatejo. Essa visita, que se realizaria a 13 de maio seguinte, era especial por incluir a cerimónia de início das obras da primeira igreja do mundo dedicada aos beatos Jacinta e Francisco. O tema que me deram, Fátima e o Século XX, levou-me a alinhar as datas mais importantes do século, que eu tinha recolhido por causa das minhas aulas de Economia, junto com as do fenómeno de Fátima. […]

A minha vida espiritual passou a seguir os caminhos da Senhora do Rosário. Nunca fui lá a pé, nem sequer costumo estar nas peregrinações aniversárias de dia 13. Mas adotei na minha vivência de fé o aroma de Fátima: as orações de Fátima, as devoções de Fátima, o apelo à intercessão da Senhora e dos pastorinhos. Nós, portugueses, temos um dever especial para com esta mensagem, que foi confiada a três dos nossos para a levar a todo o mundo. Mas o primeiro lugar onde a tenho de levar é à minha vida quotidiana.

Hoje, depois de tudo disto, permanece uma luta que essa mensagem gera em mim. É que o anjo tinha dito: «De tudo que puderdes, oferecei um sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores.» Só que eu não consigo estar nesta disponibilidade reparadora, e desperdiço muitas oportunidades de sacrifício. Mas sei que, tal como o terço foi uma conquista difícil, também este é um caminho a percorrer. […]

Foto: Ricardo Perna

Pode ler este testemunho na íntegra na FAMÍLIA CRISTÃ de março de 2017.