quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Democracia em bruto

João César das Neves
DN 20160825
O sistema democrático norte-americano é impressionante. Não é preciso admirá-lo, ou sequer gostar dele para o achar impressionante. Uma coisa destas tinha de existir, mesmo que só para se verem as qualidades e os defeitos. Ela é impressionante quando funciona bem e quando funciona mal. Ambas as situações são visíveis nas eleições deste ano.
A origem da turbulência é óbvia e genérica. As magnas perturbações do nosso tempo em termos geopolíticos, financeiros e tecnológicos criam descontentamento generalizado em todo o mundo desenvolvido. Incomodadas com as novidades, as populações favorecem o empolamento das forças extremistas, de direita ou de esquerda.
O choque é comum, mas cada sociedade lida com ele à sua maneira. Nos EUA a questão adquire um alvoroço e uma profundidade únicos. A partir de agora, quando os dois candidatos se defrontam diante do povo, a situação segue o padrão normal. Mas nos longos meses das primárias, procedimento peculiar e próprio dos Estados Unidos, viu-se bem a gravidade do momento.
O Partido Democrata mostrou como, debaixo de intensa pressão, as coisas podem correr bem. Havia um candidato destacado, que perdera da última vez e se apresentava de novo com força. Hillary Clinton não é uma boa candidata, mas está longe de ser uma má candidata. Tem vasta experiência, grande inteligência e o atractivo de ser a primeira mulher apresentada por qualquer dos grandes partidos. Seria sempre uma aposta sólida. Há oito anos já era favorita, mas aconteceu o inesperado: um jovem e inexperiente senador capturou a imaginação nacional e roubou-lhe a eleição. O regresso após longa espera acrescentou persistência às qualidades da ex-primeira-dama, mas também lhe trouxe banalização. Quando parecia ter a coroação incontestada, um velho e experiente senador surgiu com uma plataforma de extrema-esquerda (à americana, muito diferente da europeia) e tudo pareceu repetir-se. A ironia da situação é que em certas dimensões não podia haver distância maior entre Obama e Sanders, mesmo se ambos vêm da ala esquerda.
A vantagem do desafio é que fez funcionar o debate e trouxe interesse à campanha. Podia ter corrido muito mal, fracturando o partido e criando animosidade inconciliável, sobretudo quando Sanders recusou declinar mesmo diante da derrota óbvia. O suspense permanecia ainda na convenção, de 25 a 28 de Julho em Filadélfia, mas o sistema funcionou. O derrotado apoiou a vencedora, que agora tem todo o partido atrás de si. Foi um sucesso impressionante.
O impressionante fracasso aconteceu no Partido Republicano. O drama é precisamente o mesmo do outro lado; mas a resposta foi um fiasco. E o fracasso não se chama Donald Trump; chama-se Partido Republicano. Trump é apenas o corolário. Quando uma campanha se transforma numa luta de taberna, não admira a vitória de um arruaceiro. O partido está na oposição há oito anos e, como lhe competia, teve as vitórias intercalares em 2010 e 2014, até mantendo o domínio da Câmara no ano da vitória democrata de 2012. Esta situação deveria ter gerado um candidato forte, como acontecera em todas as últimas eleições presidenciais. Em vez disso surgiram 17 grandes candidatos, boa parte deles com excelentes referências, que evidentemente se anulavam uns aos outros. Quanto mais mostravam as suas qualidades, mais confusos os eleitores ficavam. O resultado foi ganhar o pretendente que não tinha nenhuma vantagem, a não ser a de mostrar que evidentemente não a tinha. Sem experiência, sem sensatez, com um passado vergonhoso, a única excelência de Trump era ser disparatado. O que se mostra sinistramente atraente em tempos de irritação.
Lançando relutantemente o seu candidato na Convenção de 18 a 21 de Julho em Cleveland, o partido atingiu um dos pontos mais baixos da sua história. A desconfiança entre Trump e a máquina é recíproca e palpável. Parece que o melhor cenário para todos os envolvidos será uma fragorosa derrota em Novembro. Qualquer alternativa implica um doido a sabotar o aparelho no horizonte previsível. Uma vitória seria um pesadelo inconcebível para a América, para o mundo, mas sobretudo para o partido que o gerou.
Isto só pode acontecer neste sistema. Aliás, o próprio Trump demonstra a solidez do regime, pela sua candidatura falhada em 2000 fora dos partidos tradicionais. Em qualquer outro país, uma situação tão extrema implicaria quebra das regras, violência ou revolução. Aqui, tudo segue como sempre, com os mesmos procedimentos, o alvoroço e a profundidade habituais. Até na beira do abismo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A razão de Passos

João Gonçalves | Jornal de Notícias | 20160822

Os partidos que hoje apoiam o Governo viveram praticamente os últimos anos na rua, a berrar, nas televisões e nos jornais a apontar o dedo e a "denunciar", nas redes sociais, com os seus voluntários ou avençados, a surpreender por detrás de cada membro do Executivo de Passos um candidato a "fascista" ou um malandro puro. Havia reportagens sobre a "geração mais bem preparada de sempre" que, aos 500 mil, tiveram de "emigrar" em virtude da maldade intrínseca da Direita. Mostravam-se filas matinais nos centros de emprego, "plenários" dos explorados trabalhadores dos transportes públicos municipais, apareciam "precários" como cogumelos em entrevistas e nas ditas redes. Relinchava-se por pelourinhos e demissões. O país era uma miséria institucionalizada pela Direita e aos bonzinhos das Esquerdas competia a tarefa patriótica de alterar tudo isso, primeiro pela habilidade comunicacional e, depois, nas urnas em que Costa falhou. Como não se muda um país em oito meses, tenho de presumir que estas Esquerdas estão confortáveis com tudo o que enumerei a título meramente exemplificativo. E as respectivas corporações também. Voltaram os melancólicos expatriados? Não voltaram. Criaram-se mais postos de trabalho duradouros? Não criaram. Melhorou a prestação dos transportes públicos urbanos? Não melhorou: apresentam todos os dias "perturbações na circulação". O consumo interno é "o" modelo? Não é. A balança comercial externa robusteceu-se graças a Centeno, Cabral, Catarina e Jerónimo? Antes pelo contrário. A percepção de credores, e da informação financeira e económica dos credores, melhorou? Não, como se viu ainda esta sexta-feira com os juros da dívida de maior maturidade a 3%. A carga fiscal foi aliviada e a administração dos impostos dá-se ao respeito? É o que se vê, com um secretário de Estado politicamente pífio e conhecido, até lá fora, pelas travessuras no IMI. A culminar este panorama devastador, mais vale pedir ao Governo para não mexer mais na Caixa Geral de Depósitos. Os episódios com a futura Administração têm sido por demais repugnantes e reveladores de um amadorismo doloso que legitima a pergunta: quais são as condições de autoridade do futuro presidente do banco? Nenhumas. Passos Coelho pode improvisar mal. E estar em minoria diante do charco de falsidades, farsas e festividades em que Costa, aliados formais e informais nos estão a meter. Mas é o único com razão.
Leia mais: A razão de Passos http://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/interior/a-razao-de-passos-5350012.html#ixzz4I3YJDOo3 
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Esquerda antiliberal

Vital Moreira
Causa Nossa, 20160822
Por diferentes que sejam as suas posições e propostas políticas (diferenças por vezes mais aparentes do que reais), uma das muitas coisas que a nova esquerda radical comunga com a velha esquerda ortodoxa é o visceral antiliberalismo doutrinário, tanto contra o liberalismo político (democracia liberal) como contra o liberalismos económico (economia de mercado).
Mas é também por isso que a esquerda social-democrata - que respeita a democracia parlamentar e a economia de mercado - não pode fazer distinções substantivas entre as esquerdas antiliberais nem ignorar o que a distingue essencialmente delas. Se, como digo há muito, a social-democracia europeia consiste na trilogia democracia liberal + economia de mercado + Estado social, então a única coisa comum com as esquerdas radicais diz respeito ao Estado social, mesmo assim em versões assaz diferentes. É importante, mas, dada a divergência de fundo quanto ao modelo político e económico, não devia chegar para mais do que convergências ocasionais.

domingo, 21 de agosto de 2016

Os malucos

Alberto Gonçalves
DN 20160821
Encerrado o "rescaldo" dos incêndios, é tempo de fazer o "rescaldo" das declarações da ministra da Administração Interna sobre os incêndios. Antes de mais, coloco a hipótese de as declarações em causa terem sido realizadas sob coacção psicológica ou ameaça de arma, factores que justificariam a radical imbecilidade das mesmas. Nesse caso, peço antecipadamente desculpa à sra. ministra por tudo o que se segue.
Enquanto o país ardia, uma revista "cor-de-rosa" fotografou a sra. ministra a passear o glamour inato numa festa algarvia ou similar. Embora as proverbiais más línguas se apressassem a condenar a dra. Constança, é inegável que, divertida e calada, esse foi o melhor momento dela nesta história. Depois, a sra. ministra cedeu às pressões populares, regressou a Lisboa e desatou a dizer coisas.
A primeira coisa que disse consistiu em lamentar a falta de solidariedade europeia no combate aos fogos. Trata-se de uma reacção representativa das principais qualidades socialistas (e, é chato acrescentar, portuguesas): perante qualquer contrariedade, procuram instintiva e alucinadamente arranjar um bode expiatório que os isente de obrigações. Para a sra. ministra, o problema não são os incêndios, mas naturalmente as maçadas que os incêndios lhe podem suscitar. Já basta o que basta, leia-se as férias interrompidas.
A segunda coisa que a sra. ministra disse passou por defender a "utilização comunitária" dos terrenos florestais abandonados, o que nas entrelinhas significa roubá-los aos donos em proveito das autarquias, que cuidariam da sua gestão e exploração: "É uma ideia que deve ser bem ponderada, bem reflectida e penso que muito útil." Se ponderarmos bem, é claro que as autarquias, esses paradigmas do rigor, seriam capazes de aproveitar as desprezadas áreas em questão para magníficas rotundas, magníficos pavilhões "multiusos" ou, com jeito, um daqueles magníficos projectos financiados pelos "fundos" e de serventia nula (na minha terra adoptiva, há um spa sem clientes que custou uma fortuna e está um primor). Se reflectirmos bem, é claro que a sugestão ajudaria a um enorme avanço na luta contra os incêndios, perdão, a propriedade privada que tanto consome as matas, perdão, a alma dos socialistas. Muito útil seria a sra. ministra não pensar de todo. E, quanto a punir o abandono de territórios, convinha notar os exemplos dos membros do governo e do PR em pessoa, quase permanentemente em França, no Brasil, na Índia ou onde calha a fim de "apoiar a selecção", "apoiar a delegação" e outros propósitos vitais: não se pode trespassar Portugal para estadistas a sério?
A terceira coisa que a sra. ministra disse define, digamos, um estilo e merece integrar um compêndio restrito dos Grandes Desígnios da História da Humanidade: a dra. Constança quer que os incendiários sejam responsabilizados civilmente além de criminalmente, isto é, que paguem o prejuízo. A sra. ministra está imparável, ou, no jargão americano e sem trocadilhos, "is on fire". De acordo com um psicólogo citado na imprensa, eis o perfil do incendiário-padrão: "Baixo nível educacional e de qualificação profissional, habitante em zona rural, consumidor de álcool, com atraso cognitivo e patologias do foro mental." Bate certo. Não é necessário o anunciado, e assaz democrático, acesso aos dados bancários dos cidadãos para constatar que um alcoólico retardado do interior, sem estudos e provavelmente sem emprego, é criatura de vastos recursos financeiros. Mal se apaguem as chamas nos 200 hectares, uma comissão de avaliação enumera os danos e o tolinho tem 15 dias para efectuar o respectivo pagamento, mediante cheque na conservatória do registo predial ou por transferência no multibanco. O Estado inicia o processo de reconstrução, com investimento público adicional e criação de emprego, e o povo festeja nas ruas. Assunto encerrado.
A ideia é tão boa que deveria ser alargada à própria esfera governamental, na qual indivíduos demasiado incompetentes e nocivos seriam responsabilizados criminal e civilmente pelos estragos cometidos. É evidente que os senhores que nos tutelam não possuem a disponibilidade orçamental do típico maluquinho da aldeia. Em contrapartida, os estragos, no bom senso, na economia e no que calha, são imensamente maiores - e, até a julgar pelas sondagens, o castigo nenhum. Quem é maluco, quem é?

Liberdade e igualdade

António Barreto
DN 20160821
Em Portugal, não há uma economia privada, uma sociedade civil ou uma classe dominante que dirija o país e comande o Estado. É o contrário. Sempre foi. À esquerda ou à direita, com interesses nacionais ou estrangeiros e com ou sem a Igreja, é o Estado que comanda. Por isso é tão frequente encontrar quem exerça o poder com o Estado, pelo Estado e através do Estado. É um Estado para todas as estações. E todos os azimutes. Nas últimas décadas, o Estado fez a guerra e a descolonização, fez a revolução e a contra-revolução, nacionalizou e reprivatizou a economia.
Não há "classes" que comandem o Estado e o organizem. Há, isso sim, patrícios, raiders, salteadores e piratas, vindos da economia ou da política, que se apropriam do Estado. Os últimos anos foram de excepcional valor para identificar uns e outros. Comandam temporariamente, com objectivos precisos ou na esperança de encontrar uma ligação duradoura. Assim é que o Estado assegura até algum efeito de auto-reprodução, levado a cabo sem uma orientação classista. Por isso, o Estado não é o "separador" entre esquerda e direita. O Estado já protegeu e oprimiu cidadãos, já os libertou e aprisionou. O Estado Novo serviu para o Estado democrático.
Tal como na direita, uma parte da esquerda não é democrática, nem preza a liberdade individual. À esquerda, todas as experiências comunistas mostraram como aquela pode ser antidemocrática. À direita, basta recordar as experiências fascistas, nazi e de outras variedades (salazarista, franquista, de Vichy...). Desde o século XIX, as mais duráveis e robustas experiências de poder da esquerda foram, do ponto de vista das liberdades, autênticos desastres! A longa vida dos governos comunistas, na União Soviética, na China, no Leste europeu, em Cuba, na Coreia do Norte e noutros países, foi sempre feita em ditadura. Em nome da esquerda. Em anos de vida e em população abrangida, os governos ditatoriais de esquerda foram superiores aos de esquerda democrática.
A maior parte das experiências governamentais da esquerda, no mundo moderno, é caracterizada por isso mesmo: ditadura, polícia política e supressão de direitos fundamentais. Nesses países, as vítimas mortais e os presos contam-se por milhões e dezenas de milhões. Em todas essas experiências, o valor da igualdade foi sempre dominante. Em seu nome se suprimiu a liberdade.
Na história política da Europa, a esquerda democrática teve uma vida difícil, entre as ditaduras de direita e as de esquerda, entre o capitalismo e o comunismo. Mas conseguiu durar e, em certos países, impor-se. Foi mesmo capaz de governar, nos países escandinavos e, episodicamente, em França, na Grã-Bretanha, até na Alemanha. Assim como em Portugal e na Espanha. Fê-lo quando soube denunciar a tradição autoritária comunista. Teve sucesso quando foi capaz de conquistar para o seu espaço outras políticas do centro e da direita. Teve êxito quando admitiu que o mercado e a iniciativa privada faziam parte do legado de liberdade e que eram irrenunciáveis. Venceu quando garantiu que a liberdade era a prioridade absoluta.
O trabalho, a justiça, a cultura e a igualdade são valores de esquerda. Ou antes, também são de esquerda. Mas a liberdade vem à cabeça. Pelo menos com a esquerda democrática. Quando um partido ou um governo substitui, entre as prioridades políticas, a liberdade pela igualdade, não restam dúvidas: esse partido ou esse governo está a abandonar a democracia! A igualdade não é uma arma de luta pela liberdade. Com a igualdade, é difícil defender a liberdade. Pelo contrário, com liberdade, podemos combater a desigualdade. A liberdade é mesmo a principal arma de luta pela igualdade.

A minha candidatura à administração da Caixa

Helena Matos
Observador 21/8/2016

Tendo os bancos chegado ao que chegaram tendo à frente tão grandes sumidades é certamente este o momento de arriscar em ignorantes. Como eu. Concordaremos que não podemos fazer pior, pois não?

Caro Sr. Mario Draghi,
venho pela presente apresentar a minha candidatura à administração da Caixa Geral de Depósitos. Porquê? – perguntará Vossa Excelência que certamente ignora a minha existência mas doravante e para o futuro certamente me olhará com outros olhos pois estou certa que uma vez lida esta missiva não deixará de concluir que sou a melhor das candidatas a tal função. (E também dos candidatos e d@s candidat@s mas esse é um assunto que fica para depois).
Já sei que mal a cartinha lhe caia na mesa logo lhe dirão e mandarão dizer que eu não sei nada de bancos nem de gestão bancária. Como Vossa Excelência deve estar farto de saber, a inveja, mais que um defeito, é em Portugal uma questão de ADN – está-nos na massa do sangue – mas no caso concreto estão os meus compatriotas cheios de razão: na verdade, eu não sei nada sobre bancos e muito menos sobre gestão bancária e tenho até muito orgulho nisso. Aliás é por isso mesmo, por não saber nada, nadinha mesmo de gestão bancária, que me acho mais que habilitada, habilitadíssima, para o cargo de administradora da Caixa Geral de Depósitos. Pois terá Vossa Excelência, e os mais que lerem esta carta, de convir que tendo os bancos chegado ao que chegaram tendo à frente tão grandes sumidades na sua gestão é certamente este o momento de arriscar em ignorantes. Como eu. Concordaremos que não podemos fazer pior, pois não?
Por outro lado, não sabendo eu nada de bancos (coisa que creio ter demonstrado à saciedade ser no actual estado dos bancos uma vantagem acrescentadíssima), sei muito sobre contas bancárias. Sobre as minhas, por exemplo. E garanto-lhe que se os bancos tivessem gerido o dinheiro que lhes foi confiado com a parcimónia e a cautela com que eu e milhões de outros europeus, ignorantíssimos como eu sobre os altos saberes que têm regido os nossos os bancos, certamente que não andávamos a pagar os calotes que pagamos e temos para pagar. Dir-nos-ão que não vamos além das contas de merceeiro, que não percebemos a dinâmica dos fluxos de capitais aplicados aos planos de negócio com vista ao desenvolvimento de um core business e aplicações em swaps e derivados com activação dos CDS, (não é o CDS gémeo do MPLA mas os dos credit-default swaps) sem esquecer os unit-linked. (Está a ver Vossa Excelência que já domino a linguagem do meio?) Mas é para isso que está aí o INSEAD. Se achar conveniente posso ir frequentar as tais aulas do INSEAD que o BCE recomendou aos meus colegas candidatos com um despropósito que me leva a pensar que os senhores aí no BCE ainda não estão a par da evolução das novas teorias do ensino-aprendizagem defendidas pelo nosso ministro da Educação.
Eu que aguentei diariamente na infância com uma cópia, a conjugação pronominal de um verbo irregular e dezenas de problemas da Colecção Infante sobre torneiras que enchiam e despejavam tanques e depósitos de vinho (não queira saber os exemplos que nos davam na escola!) não vou agora desistir por causa de umas aulas de Gestão Bancária Estratégica, Gestão de Risco na Banca sem esquecer o Risco Financeiro e Regulação. O que para mais deve dar direito a conseguir passear-me com demora pelos corredores de Fontainebleau.
Dirá Vossa Excelência que entre o local das aulas e o castelo que lhe deu o nome medeiam vários quilómetros: logo eu não poderei estar no campus de Fontainebleau na aula de Gestão de Risco na Banca e a admirar o boudoir turco de Maria Antonieta no castelo do mesmo nome. Ou a iniciar-me nos meandros da Gestão Bancária Estratégica enquanto me perco nos jogos de espelhos que permitiam à rainha ver sem ser vista. Tudo isso é verdade mas, vamos lá, meu caro Mario Draghi, a avaliar pelo estado actual dos bancos ou os outros alunos ainda faltaram mais do que eu me proponho faltar ou, faltando tanto ou mais do que eu faltarei, aproveitaram a gazeta para visitar locais bem menos propícios à reflexão sobre a transitoriedade da vida e a volatilidade da riqueza do que os aposentos daquela desgraçada mulher.
Enfim, se fizer muita questão e me pagar as régias propinas, lá irei para França. Mas isto, acredite, resolvia-se muito mais em conta com uns TPC: os senhores mandavam-me os exercícios e eu respondia. Claro que esta minha proposta, muito comezinha, sem visão nem rasgo, se deve ao facto de eu ainda não ter frequentado as tais aulas de gestão estratégica, saber que pelo que me é dado perceber resulta quase sempre num tremendo prejuízo para os bancos e num enorme benefício para os gestores dos mesmos. Mas isto há-de passar-me mal me comece a passear por Fontainebleau, castelo incluído.
Neste momento não duvido que me considere já a administradora ideal. Mas ainda lhe vou dar outras razões. Saiba Vossa Excelência – ou será que já nos podemos tratar por colegas? – que eu conheço muito bem a Caixa pois faço parte de uma geração que se estreou no mercado de trabalho como “professora de mini-concurso”. Coisa que entre vicissitudes várias se traduzia por ser colocada de meia dúzia de meses em meia dúzia de meses numa localidade situada a vários quilómetros quer do local onde residíamos quer do local onde nos tinham colocado anteriormente. Isto obrigava a várias coisas que um dia quando estivermos nos nossos almoços lhe contarei à laia de anedota e quem sabe até acabarei a leccionar no INSEAD uma cadeira sobre Gestão da Vida em Absoluta Mobilidade, com Filhos Pequenos, Sem Ajudas de Custo, Para ter Emprego Durante Alguns Meses em Horários Retalhados pelos Colegas do Quadro com a Conivência dos Colegas Sindicalistas.
Outra particularidade desta por assim dizer carreira era que mal se chegava à terra da nova colocação havia que descobrir um sítio para dormir e abrir uma conta na CGD local. Acumulei cadernetas e cadernetas de vilas pitorescas e pequenas cidades. A minha relação com a caderneta da CGD, documento que presumo desconhecerem muitos dos escolhidos para administrar aquele banco, reforça-me como candidata a administradora e autoriza-me até a que especifique que, diga o INSEAD o que disser, deve haver na administração um lugar para o administrador das cadernetas. E eu sou a pessoa ideal. Idealíssima.
Mas continuemos nos detalhes do meu perfil que me tornam a candidata ideal ao cargo de administradora da caixa. Como sabe ou fica agora a saber sou mulher. E mandam as lei modernas que as mulheres estejam nas administrações das empresas, na liderança das instituições, a presidência dos EUA… (Excepções feitas ao Estado do Vaticano enquanto por lá andar o Papa Francisco e à ONU porque Guterres que é a versão nacional do Papa Francisco está candidato).
Pois voltemos então ao meu sexo. Eu sei que devia escrever género. Mas perdoa-me Mário – o assunto facilita a que nos iniciemos no tu cá tu lá – até me disponho às segundas declarar-me gay, as terças transgender, às quartas mulher heterossexual, às quintas intersexo, às sextas homem e ao fim-de-semana descanso porque com Brexit ou não a semana que vale é a inglesa. A muito estou disposta para ter o perfil certo mas realmente deixar de ter sexo para passar a fazer género não me calha. Compreendes, não?
Assim postas as coisas, que outro candidato arranjam vocês aí no BCE que some um tal repositório de qualidades?
Assim na expectativa da Vossa rápida resposta que não vejo como poderá ser outra que não “Vem Helena que a matrícula no INSEAD já está feita e paga” me despeço.
Atentamente,
Helena Matos

PS. Para o caso de o meu curriculum Vos impressionar ao ponto de a banca privada me disputar esclareço antecipadamente que só aceito ser administradora de bancos públicos. É que ser administrador de um banco público é um sossego, em Portugal. Não há cá perguntas impertinentes das maninhas Mortágua, nem indignações do camarada Tiago, nem verborreias prolixas do dr. Galamba.
E eu, quando for à AR dar conta do meu trabalho, quero ter a certeza de que estas reconhecidas sumidades não me perguntam mais nada além de “Pode a excelentíssima senhora administradora dar-nos conta do seu labor em prol da riqueza da nossa banca pública?”

Uma virgem chamada António Costa

João Marques de Almeida
Observador 21/8/2016

No universo político de Costa as intenções e os anúncios é que contam. Concretizar as promessas é irrelevante. Numa Europa em crise constante haverá sempre uma razão para explicar que não foi possível
1. Conta-se uma história sobre uma festa de homenagem a uma velha actriz de Hollywood, que se havia dedicado a todo o tipo de causas humanitárias. Um dos convidados fez um discurso a enaltecer as iniciativas e as boas intenções da velha senhora. Todos os convidados, excluindo um deles, bateram palmas. A excepção chama-se Woody Allen. Espantado com o comportamento de Woody, o seu vizinho de mesa perguntou se tinha alguma coisa contra a homenageada. Woody Allen respondeu: “Sabe, eu conhecia-a antes de ela ser virgem.”
Lembrei-me desta história quando li sobre a reação de António Costa aos fogos em Portugal, a propósito do reconhecimento do seu antigo secretário de Estado de erros cometidos pelo ministério da Administração Interna, tutelado então por Costa. Ascenso Simões disse que, contrariando um estudo feito na altura, o ministério de Costa decidiu investir na compra de equipamento para combater incêndios em vez de se concentrar em estratégias de prevenção. Costa respondeu que o seu ministério tinha adoptado políticas que permitiriam a verdadeira reforma das florestas, e acrescentou, com um toque de virgindade: “Devo dizer que fico chocado, dez anos depois, por verificar que essa reforma não foi feita.” Não há nada mais tocante que o choque das virgens. Coitadinho de António Costa. Preparou tudo para uma grande reforma das florestas. Depois foi-se embora para outras vidas, e os malvados que vieram – incluindo os do seu próprio partido – nos dez anos seguintes nada fizeram. E ele, o Costa, vivia noutro planeta, sem nunca mais se ter preocupado nem com matérias da administração interna, nem com fogos, nem com florestas, apesar de ter sido líder do maior partido da oposição e candidato a PM no país que mais arde em toda a União Europeia.
Mas os incêndios foram apenas o exemplo mais recente da readquirida virgindade de António Costa. No resto Costa também segue a “política da castidade”. Começa por mostrar as suas boas intenções, anunciando que a economia vai crescer muito mais do que seria possível, que a inovação e a educação vão atingir patamares nunca imaginados, ou défices que nunca serão alcançados. Mas no universo político de Costa, as intenções e os anúncios é que contam. Concretizar as promessas é secundário e quase irrelevante. Numa Europa e num mundo em crise permanente, haverá sempre uma razão para explicar a impossibilidade de cumprir as promessas. Os mercados, os refugiados, o terrorismo, o Brexit, Bruxelas, a direita europeia, o tempo, o azar, ou qualquer outra coisa.
Costa quer convencer os portugueses que nunca foi ministro de governos sem crescimento económico de nota, que não pertence ao partido cujo governo liderado por Sócrates foi o que mais contribuiu para o aumento da dívida pública portuguesa, ou que não pertence a um dos partidos que votaram a favor do Pacto Orçamental e da União Bancária. Ele não tem passado com pecados. Chegou agora à política e, na sua imaculada virgindade, promete o melhor dos mundos, incluindo o que nunca conseguirá cumprir. Eis a maior dificuldade de Passos Coelho. Como pode quem tanto pecou, impondo austeridade a um país inteiro, combater um politico que recuperou a sua virgindade e, tal como a velha actriz de Hollywood, espalha a sua virtude pelos quarto cantos de Portugal?
2. Os críticos de Passos Coelho, incluindo os comentadores da área do PSD, basicamente querem que o líder social democrata minta aos portugueses, tal como António Costa o faz. Pedem-lhe que também ele regresse ao estado de virgindade política. Dizer a verdade e aquilo em que se credita apenas evidencia pessimismo e o pior dos defeitos, experiência. O que é necessário é criar ilusões entre os portugueses. O apelo à mentira tornou-se o grande argumento destes comentadores.
Mas os críticos de Passos enfrentam um problema politico mais complicado. Para um dia ganhar as eleições, um líder do PSD precisa de ser visto como uma clara alternativa a Costa e independente em relação a Belém. Um líder do PSD que imite o discurso “optimista” de Costa tornar-se-á uma cópia do PM. Por que razão votariam os portugueses numa cópia do original? Por outro lado, se o líder do PSD fosse visto pelos portugueses como dependente e controlado pelo PR, nunca seria eleito PM. Seria visto como um líder fraco. O discurso de Passos pode ser um pouco repetitivo, mas não há português que não saiba que o líder do PSD é uma alternativa ao PM e independente do PR. E só assim poderá ser eleito chefe de governo. 
3. A saga da escolha da administração da Caixa Geral de Depósitos constitui um dos maiores exemplos de incompetência política do governo. Escolheu sem consultar a lei (haverá assessores jurídicos no ministério das Finanças?), desistiu dos escolhidos sem os avisar (e estamos a falar de pessoas de reputação e competências indiscutíveis), e passou pela humilhação e pela vergonha do BCE chumbar as escolhas do governo invocando a legislação portuguesa. Resta fazer a pergunta óbvia: como é possível que Mário Centeno seja ainda ministro das Finanças?

sábado, 20 de agosto de 2016

O plano macroeconómico do PS e a realidade

André Azevedo Alves
Observador 20/8/2016

António Costa está a cumprir perante as suas clientelas políticas mais poderosas e os partidos de extrema-esquerda mas, para o fazer, está a falhar os objectivos que o próprio PS delineara para o país

Mário Centeno, Elisa Ferreira, Fernando Rocha Andrade, Francisca Guedes de Oliveira, João Galamba, João Leão, João Nuno Mendes, José Vieira da Silva, Manuel Caldeira Cabral, Paulo Trigo Pereira, Sérgio Ávila e Vítor Escária: eis a lista dos responsáveis pelo plano macroeconómico que o PS apresentou antes das últimas eleições legislativas, visando credibilizar-se junto dos eleitores. Pouco mais de um ano depois, como oportunamente relembrou Carlos Guimarães Pinto, este é um bom momento para o confrontar com a realidade.
Estou neste caso particularmente à vontade porque defendi aqui há um ano atrás que, nas devidas proporções do contexto académico e científico português, Mário Centeno e Manuel Caldeira Cabral não podem deixar de ser classificados como “economistas de créditos firmados”. Ora, uma vez que à semelhança dos restantes autores do plano macroeconómico apresentado pelo PS, emprestaram a sua credibilidade ao cenário traçado, é de elementar justiça fazer agora um balanço da sua implementação e do cumprimento dos objectivos e previsões aí delineados.
Em termos de crescimento do PIB, os economistas recrutados pelo PS previam, para um cenário de governação do PS, um crescimento de 2,4%. Caso PSD e CDS se mantivessem no poder, os economistas do PS anteviam um resultado menos animador, com o PIB a crescer apenas 1,7%.
Tendo-se concretizado o cenário de governação do PS, qual é a realidade do crescimento económico até ao final do 1º semestre? Nem os 2,4% prometidos, nem sequer os 1,7% do cenário de continuidade da governação PSD/CDS mas uns bem mais modestos 0,8%.
Relativamente à dívida pública, no cenário de governação do PS, os economistas recrutados pelo partido previam uma redução de 1,4 pp. Para o cenário de continuidade da governação PSD/CDS, a previsão era ligeiramente menos optimista: uma redução de 1,2 pp.
A realidade com o PS no poder? Muito pior do que o previsto em qualquer dos cenários anteriores: um aumento da dívida pública em 2,7 pp.
Se acreditarmos nos economistas que o PS recrutou para elaborar o plano macroeconómico que o partido apresentou aos portugueses, o único balanço possível no final do 1º semestre de 2016 é que a governação do PS está a ter um efeito económico devastador face ao que teria sido a continuidade da governação PSD/CDS.
Tudo isto ao mesmo tempo que a situação do sistema bancário nacional se deteriora a olhos vistos com a deplorável e irresponsável gestão política dos casos do Novo Banco e da Caixa Geral de Depósitos e quando só a acumulação de dívida pública no BCE – assente, convém não esquecer, no frágil rating concedido pela agência de notação DBRS – vai evitando o colapso.
O governo liderado por António Costa está a cumprir perante as suas clientelas políticas mais poderosas e perante os partidos de extrema-esquerda que sustentam a “geringonça” mas, para o fazer, está a falhar drasticamente os objectivos que o próprio PS havia delineado para o país há pouco mais de um ano atrás e que hoje parecem estranhamente ter caído no esquecimento. Como bem apontou Rui Ramos: “O governo de António Costa não tem tempo para essas questões. O seu único objectivo é manter a base de poder dos partidos que o apoiam, defendendo o Estado e as suas clientelas à custa do resto da população. Ninguém sabe quando isto vai acabar, mas já pouca gente acredita que acabe bem.”
Independentemente do final que o filme que estamos a viver venha a ter, há no entanto uma coisa que é certa: o plano macroeconómico do PS chocou de frente com a realidade.

As Jornadas Mundiais da Juventude: uma Olimpíada da Fé

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Observador 20/8/2016

O Papa Francisco criticou os "couch potatoes", ou seja os sedentários, jovens ou velhos, que passam várias horas do dia deitados no sofá, diante da televisão ou à frente do computador.
Há dois mil anos, escrevia o apóstolo adolescente aos primeiros cristãos: “Eu vos escrevo jovens, porque sois fortes, porque a palavra de Deus permanece em vós e porque vencestes o maligno!” (1Jo 2,14).
A mesma mensagem, mas com outras palavras, foi o desafio que o Papa Francisco fez aos jovens que participaram, em Cracóvia, nas XXVIII Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ). Segundo Damian Muskus, o bispo coordenador geral das JMJ, participaram 200 mil jovens na missa de abertura; na Via Sacra, os peregrinos eram já 800 mil; no sábado, a organização contabilizou 1,6 milhões de presenças na celebração no Campo da Misericórdia; e, no domingo, na Eucaristia final, participaram mais de 2,5 milhões de fiéis.
Pensando sobretudo nos adolescentes que têm uma existência cómoda e despreocupada, o sucessor de São João Paulo II – a quem se ficou a dever a libertação da Polónia e do Leste europeu, bem como as Jornadas Mundiais da Juventude – fez um vigoroso apelo: “queridos jovens: não viemos a este mundo para vegetar, para passar a vida comodamente, para fazer da vida um sofá no qual adormecemos. Ao contrário, viemos para deixar uma marca!”
Para quem ainda pensa que a religião é o ópio do povo, as palavras de Francisco não poderiam ter sido mais realistas, nem mais incisivas, mobilizando os jovens católicos para uma presença mais activa na sociedade mundial: “O tempo que estamos agora a viver não precisa de jovens-sofá, mas de jovens com sapatos, melhor ainda, com as chuteiras calçadas. Só aceita jogadores titulares na equipa; não há lugar para suplentes!”
O apelo do pontífice era, porém, escusado, para aquela grande multidão de jovens que, para chegarem ao Campo da Misericórdia, nos arredores de Cracóvia, tinham já peregrinado, pelo menos, 12 kms a pé. Muitos dormiram depois ao relento, enquanto alguns foram acolhidos em instalações mais do que muito precárias, às vezes no meio do lodaçal em que a chuva transformou o recinto das Jornadas. Contudo, nada que arrefecesse o entusiasmo ou a alegria dos muitos milhares de jovens que participaram nas JMJ. Muito significativa também a presença de bastantes religiosas, sobretudo jovens, e a de muitos padres, que acompanhavam os jovens, os atendiam em confissão e os preparavam para a Eucaristia final, a missa do envio. Com efeito, cada JMJ não é apenas uma meta de chegada, mas também de partida, para uma renovada missão apostólica e … para as próximas Jornadas, a realizar no Panamá, em 2019!
Sob o lema da misericórdia, o Papa Francisco aproveitou a multitudinária assembleia para chamar a atenção para os actuais dramas humanitários, que não podem ser reduzidos a uma mera notícia da imprensa sensacionalista, ou às chocantes imagens de abertura de um qualquer telejornal: “Sejamos conscientes da realidade. A dor, a guerra em que vivem muitos jovens não pode continuar a ser anónima, tem que deixar de ser uma mera notícia de imprensa, porque tem nomes, tem rostos, é uma história que tem que ter proximidade”. E, para que as suas palavras fossem corroboradas pelo exemplo, Francisco quis ouvir, na companhia de todos, o impressionante testemunho de Rand, um jovem sírio de Alepo. O Papa argentino comentou depois: “a nossa resposta a este mundo em guerra tem um nome: chama-se fraternidade”.
O Papa Francisco não pretende convocar uma nova cruzada, nem uma espécie de intifada cristã, ao jeito da jihad muçulmana. Como ele próprio esclareceu: “Nós não vamos agora gritar contra ninguém, não vamos lutar, não queremos destruir. Nós não queremos vencer o ódio com mais ódio, nem vencer a violência com mais violência, nem muito menos vencer o terror com mais terror”.
Mas, se os objectivos são pacíficos, como pacíficos hão-de ser também os meios a utilizar nesta nova evangelização, todos os cristãos, nomeadamente os mais jovens, têm que ter consciência da exigência da missão a que são chamados, a qual é de todo incompatível com a paralisia do sofá: “Uma paralisia que nasce quando se confunde a ‘felicidade’ com o ‘sofá’. Um sofá contra todo tipo de dores e temores. Um sofá que nos faz ficar em casa trancados, sem nos cansarmos, nem nos preocuparmos”.
Neste seu jeito tão particular de motivar os jovens católicos para os desafios do terceiro milénio da era cristã, o Papa Francisco criticou os chamados couch potatoes, termo usado pelos americanos para referir os sedentários, jovens ou velhos, que passam várias horas ao dia deitados no sofá, diante da televisão ou à frente do computador.
Num mundo dilacerado por tantas guerras e perseguições, nomeadamente contra os cristãos, a presença de mais de dois milhões de jovens nas Jornadas Mundiais da Juventude é, sem dúvida, um motivo de alegria e um sinal de esperança, porque “esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé!” (1Jo 5, 4).

Guerras de sombras

Inês Teotónio Pereira
DN 20160820

O meu telemóvel partiu-se. Foi o que bastou para me irritar, para me queixar da vida, para praguejar. Até que por acaso esbarrei com um vídeo. O vídeo de um menino da idade dos meus coberto de sangue a entrar numa ambulância depois de mais um ataque aéreo na Síria. O vídeo estava a ser emitido pela CNN e a ser difundido pelas redes sociais. Durante os longos dois minutos que dura a gravação o menino não solta um som. Não chora e não grita, limitando-se a limpar o sangue que lhe escorre na cara ao banco da ambulância. Está impávido e sossegadinho na ambulância. Não se mexe. Tem um olhar parado que nem sequer transparece medo, apenas apatia. Logo a seguir a este embate com o mundo da guerra, entrei na FNAC para resolver o meu problema vital com o telemóvel e estava um senhor - não um rapaz - a jogar um videojogo num ecrã gigante. O ecrã estremecia a cada rajada de metralhadora. O sangue parecia pingar para fora e o cenário de guerra, onde tudo se passava, era igual ao do vídeo do menino da idade dos meus que anteontem - no dia em que o meu telemóvel se estragou e eu achei que o mundo ia acabar - ficou coberto de sangue depois de mais um ataque aéreo. Fiquei hipnotizada a ver os pontos que o senhor ia acumulando e a destreza com que conseguia passar de nível destruindo tudo o que se mexia. Nada de mal, é apenas um jogo. E eu até faço parte da minoria que não atribui aos videojogos a responsabilidade pelas barbaridades que se passam no mundo mas sim às pessoas que as cometem, que escolhem o mal quando podiam não escolher coisa alguma. Não foram as questões sociológicas da origem da violência que me prenderam àquele jogo mas sim pensar como estamos todos tão longe do cheiro da guerra e do seu horror que achamos normal que um bom jogo é aquele que transporta para o meio da FNAC um cenário igual àquele onde Omran foi bombardeado. Que quanto maior o terror do realismo melhor é a ficção. Que estranho é ser tão normal brincar com coisas tão sérias e depois chorar as verdadeiras vítimas quando a realidade nos entra pelo FB.

Omran Daqneesh

O menino Omran Daqneesh, de 5 anos, aguarda atendimento em uma ambulância, sujo de sangue e de poeira, após ser resgatado dentre escombros de um edifício alvo de um bombardeamento aéreo em Aleppo, no norte da Síria. 
 (Foto: Reuters)

E se fosse consigo?

Graça Franco
RR 19 ago, 2016

Não foi numa rua do Iraque. Foi mesmo em Ponte de Sor.

Não fora os agressores serem filhos do embaixador do Iraque e talvez a notícia não tivesse saltado da habitual listagem dos crimes do “Correio da Manhã” para os noticiários nacionais e os jornais de referência. A violência inaudita seria exactamente a mesma. Votada a uma indiferença que nos vai roubando o coração. Fossem os dois gémeos iraquianos dois adolescentes de Portalegre e talvez nem tivéssemos tomado conta da ocorrência. E, contudo, passou-se. Isso deveria bastar-nos para parar e pensar.
Pela violência do crime. Sim, mas não só, nem especialmente. O que é feito da humanidade quando jovens são de tal forma dominados pelo ódio que mesmo sob o efeito do álcool são capazes de esmagar a cabeça de um miúdo saltando a pés juntos sobre ela? Numa violência que não deixa dúvidas sobre o objectivo final: matar.
A nacionalidade/impunidade dos agressores desvia-nos da reflexão essencial. Mais importante do que saber a forma como a sociedade vai conseguir punir o crime ou de que forma o “sistema” ou ambiente de “guerra” em que os agressores provavelmente cresceram pode explicar a violência inusitada para eliminar “o outro”, importa perceber como a sociedade de brandos costumes que os recebeu está ou não hoje capturada pela indiferença.
O jornal “Público” traça o relato possível de uma noite onde a par da violência cresce a sociedade paralisada pelo medo. Uma dormência social que só por si justifica o verdadeiro serviço cívico prestado pela SIC através da série “E Se Fosse Consigo?”. Um grilo falante que tenta despertar as audiências do coma espiritual.
Socorro-me da reportagem de Ana Dias Cordeiro e Mariana Oliveira sobre o crime de Ponte de Sor onde se afirma que “pessoas despertaram muito antes da alvorada com gritos que as levaram às varandas e janelas da Avenida da Liberdade, ainda a tempo de verem um dos suspeitos saltar com os dois pés em cima da cabeça do rapaz. Não desceram. Foram ameaçados pelos agressores que estariam embriagados e gritavam que se descessem à rua lhes fariam o mesmo”.
Não desceram. Foram “ameaçadas”. Isto basta para aparentemente legitimar a inacção. E se fosse com eles? E se fôssemos nós em vez deles? Teríamos descido? E se fosse o nosso filho, o miúdo de “olhos azuis e olhar doce” que víamos da “janela ou da varanda” a ser agredido, caído na rua, quase moribundo. Arranjaríamos aí coragem para descer? Mesmo sob ameaça desceríamos a salvar o nosso?
O que é feito da humanidade quando se deixa de tal forma dominar pelo medo que o relato pode prosseguir assim: “Eram quatro horas da manhã. Quando os homens do carro do lixo passaram e ainda viram os agressores antes de fugirem num Mercedes…”.
O miúdo de olhos azuis meio-morto foi apanhado do chão pelos samaritanos do carro do lixo. Não foi numa rua do Iraque. Foi mesmo em Ponte de Sor.

Ser cristão não serve para nada?

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 20/08/2016

Ser cristão não serve para nada?

Há uma semana escrevi um texto sobre a ida de Marcelo Rebelo de Sousa à Madeira onde escrevi duas coisas que irritaram uma impressionante quantidade de leitores e de amigos. A primeira coisa foi ter elogiado o comportamento do presidente da República relacionando-o com o facto de ele ser cristão. Ou seja, atrevi-me a considerar que Marcelo demonstrara no Funchal uma capacidade e um talento para consolar quem sofria que tinha uma ligação com a fé que professava. A segunda coisa foi ter dito que a empatia se encontrava retratada nos Evangelhos como em mais lado nenhum.
Inúmeros leitores agnósticos e ateus ficaram ofendidos com as minhas palavras. Essa ofensa tem um duplo efeito sobre mim: chateia-me e entristece-me, porque me parece pura e simplesmente absurda. Vamos por partes. Em primeiro lugar, a questão dos Evangelhos. Eu não conheço todos os livros sapienciais do planeta, mas dentro daquilo que é a literatura ocidental ou a tradição dos monoteísmos não estou a ver que outro livro trate o amor ao próximo e a empatia de forma mais radical do que os Evangelhos. Isto só é uma opinião original para quem nunca leu a Bíblia. Não percebo porque é que um ateu não pode ler os Evangelhos com a mesma abertura intelectual com que lê Hamlet. Eu preciso de provar a existência do crânio de Yorick para apreciar as palavras de Shakespeare? Então para quê viver obcecado com a adesão à realidade dos conteúdos da Bíblia? Esqueça-se a existência de Deus e aprecie-se a literatura. Não é preciso acreditar na ressurreição para admitir que a empatia se encontra retratada nos Evangelhos como em nenhum outro lugar.
O segundo ponto, relacionado com a ligação que estabeleci entre o talento para consolar os que sofrem e a adesão ao cristianismo pode ser menos intuitiva, mas é fácil de compreender. Mais uma vez, não é necessário ter fé – basta achar que a fé serve para alguma coisa. Infelizmente, existe uma costela jacobina muito desenvolvida que não só recusa a fé, como recusa que ela possa ter qualquer efeito sobre os seus crentes. Enfim: nem sempre. Peguemos no fundamentalismo islâmico. Qualquer pessoa, crente ou ateia, está disposta a admitir que jovens muçulmanos são radicalizados pela acção de imãs extremistas, contra os quais há leis de expulsão. Nesse caso, admite-se que a religião serve para criar radicais capazes de sacrificarem a vida para matar os outros. Aquilo que já não se admite é que a religião possa criar radicais capazes de sacrificarem a vida para salvar os outros.
Isto não significa que um cristão seja moralmente superior a um ateu, ou que tenha de ser melhor do que ele a acudir aos mais fracos. Significa apenas que quando um cristão tem a vocação e o empenho necessários, os Evangelhos são um excelente instrumento para treinar a nobre arte do consolo. Quando dei o exemplo de Marcelo, não disse que ele era melhor pessoa do que um ateu, até porque nesse mesmo texto o apelidei de imprudente, impulsivo e infantil. O que disse, e mantenho, é que o talento natural de Marcelo no contacto com os outros, em conjunto com a sua formação cristã, o torna muito bom a consolar os que sofrem. Não é possível passarmos milhares e milhares de horas da nossa vida a estudar um assunto e isso não ter qualquer efeito em nós. Não me parece que se trate de uma questão de fé, mas de lógica – até porque tanto pode dar para o bem, como para o mal. Mas se nós aceitamos o fanático, por que não podemos aceitar o santo?

Não está a resultar...

Daniel Bessa
Expresso, 20160820

Governo e a maioria política que o suporta no Parlamento prometeram, entre outras coisas, fazer crescer a economia portuguesa. Nisso se distinguiriam, entre outros méritos, do Governo anterior e das forças políticas hoje na oposição. 
Decorrido metade do ano, o PIB está a crescer ligeiramente abaixo de 1%, sendo esta a taxa de crescimento que se espera para 2016 (se as coisas melhorarem na segunda metade do ano). Cresceu um pouco mais (1,46%) em 2015 e sensivelmente o mesmo (0,91%) em 2014. 
E reconhecerem que poderão ter-se enganado, sendo melhor mudar de caminho? 
O fator que, segundo a nova maioria, deveria acelerar o crescimento do PIB era o consumo das famílias. E este não tem faltado: as famílias estão a gastar acima do seu rendimento disponível (a sua poupança encontra-se em mínimos históricos, sendo agora negativa), e o crédito ao consumo aproxima-se de máximos históricos. Mesmo assim, o crescimento do PIB não acelera. 
Uma conduta de acordo com práticas recomendáveis deveria levar o Governo e a maioria parlamentar a dizerem-nos alguma coisa. Porque é que, estando a ser implementada pelas famílias (é o que parece...), a estratégia delineada não está a dar o resultado pretendido? Deverá o Estado, ele próprio, consumir mais, endividando-se mais? Deverá incentivar as famílias a gastarem ainda mais, endividando-se, também elas, ainda mais? Ou, pura e simplesmente, reconhecerem que poderão ter-se enganado, sendo melhor mudar de caminho?

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A ‘silly season’ já não é o que era

Henrique Monteiro
Expresso 20160819

A ‘época ou estação palerma’, tradução literal de ‘silly season’ já não é o que era. Dantes chamava-se assim porque as notícias eram frívolas e envolviam pessoas frívolas que sabiam estar a praticar frivolidades. Os alemães chamavam-lhe Sommerloch, ou seja, ‘buraco de verão’, e os franceses la morte saison, ou a estação morta. Ou seja, não havia notícias. 
Agora também há poucas, e as poucas que há são palermas. Mas os seus protagonistas pensam que não, que são declarações de alto interesse. Coisas que vão desde o discurso de Hélder Amaral sobre o MPLA até àquele em que me vou fixar: o discurso do PCP sobre a necessidade de resistirmos à “ingerência” europeia na CGD e no Orçamento do Estado. Ó camaradas comunistas, mas se a Europa não se imiscuir naquilo que paga e tem de regular, que andamos nós a fazer na Europa? 
Perguntam-me se é uma humilhação o BCE dizer que não quer oito administradores por estarem a acumular com outras funções? É uma humilhação para as pessoas e para o Governo português. Só que não houve qualquer ingerência do BCE. Tal facto decorre da lei portuguesa de que alguém aqui se esqueceu, mas de que em Frankfurt se lembraram. Depois é uma humilhação mandar uns administradores estudar? Talvez seja, não faço ideia se um regulador deve passar do aceito/não aceito para aceito se o rapaz se portar bem. De qualquer modo, o saber não ocupa lugar, não é verdade? E se vão para um banco público lidar com assuntos sobre os quais podem saber mais e melhor, é bom que alguém os mande estudar. 
A célebre ‘geringonça’ anda um pouco de candeias às avessas nesta matéria (nada de grave, que o poder cura tudo e mais alguma coisa). Mas o PCP e o BCE dispensavam tantos administradores e, sobretudo, tanta “ingerência”, como diz João Oliveira, o líder da bancada comunista. 
Pois caro João Oliveira, com o devido respeito, a ingerência da Europa na CGD e no Orçamento do Estado faz-me lembrar uma cena dos Monthy Python no seu inesquecível filme “A Vida de Brian”. Nessa cena um judeu radical anti-romano interroga os seus camaradas: “Sim, e o que nos deram os romanos?”. E logo um responde: “As estradas!”. Insiste o primeiro: “Sim, mas tirando as estradas?”. E diz o outro: “As pontes!”. Volta o chefe: “mas tirando as estradas e as pontes?”. E diz outro ainda: “Os banhos!”. Já irritado o chefe grita: “Sim, mas tirando as estradas, as pontes e os banhos?”. E diz outro ainda: “A lei civil”. E continua e tirando isto aquilo e aqueloutro, ou seja quase tudo, o que nos deram, e todos concordam que não nos deram nada. 
Pois a Europa também só se ingere, nunca nos deu nada. Tirando o dinheiro, o desenvolvimento, as estradas, as pontes, o turismo, a moeda forte, o fim do nosso isolamento internacional e… a recordação de que as nossas próprias leis são para cumprir… 
Mais “silly” do que isto, de facto, não há! A pena é ser um “silly” involuntário.

So Long, Margarida

Maria José Morgado
Expresso 19.08.2016 às 16h32

A magistrada Maria José Morgado escreve, “com atraso de seis anos”, uma carta a Margarida de Sousa Uva, que morreu quinta-feira, vítima de cancro. “Talvez agora alguém por ti receba este meu longo adeus de saudade e amizade eterna”

Há coisas que só se fazem uma vez na vida, como escrever uma carta com atraso de seis anos, depois de ter sabido da tua morte.
Conheci-te nas lutas estudantis maoístas, éramos duas estudantes radicalizadas pelo desejo fanático de um mundo melhor e eu gostava muito de ti. Acreditávamos no impossível, éramos ridículas, felizes e ninguém ia morrer. Os nossos sonhos eram eternos.
A vida separou-nos, nunca mais falámos, embora eu adivinhasse pelo teu sorriso público que continuavas a mesma. Tive essa confirmação numa longa carta que me escreveste quando o Zé Luís morreu. Uma carta à antiga, daquelas em papel branco com muitas folhas, onde falavas dos tempos antigos. Terminavas a dizer-me que não era para eu responder, era assim um adeus a um velho amigo, de resposta impossível. Quis responder-te muitas vezes, nunca me esqueci da carta e nunca consegui responder. Era aquela história do papel, a dúvida sobre o endereço no envelope, a eternidade dos sentimentos indizíveis, a saudade.
Respondo-te agora, fora do tempo como sempre e sem conseguirmos falar como sempre. Talvez agora alguém por ti receba este meu longo adeus de saudade e amizade eterna.

Margarida Sousa Uva Durão Barroso
(1955-2016)

Aparição - Fátima (filme de Daniel Costelle, 1991)

Fracasso económico e orçamental

Pedro Braz Teixeira 
ionline 19/08/2016

A estratégia económica deste governo está duplamente errada e já está a produzir os piores resultados. O primeiro erro foi ter colocado a ênfase na procura interna, em detrimento das exportações, enquanto o segundo consiste em, dentro da procura interna, preferir o consumo privado ao investimento.
O primeiro erro foi ter colocado a ênfase na procura interna, em detrimento das exportações, uma via já experimentada no passado com os piores resultados possíveis: a pior estagnação dos últimos 100 anos; um endividamento externo galopante (de menos de 10% do PIB em 1995 para mais de 100% do PIB a partir de 2009); a necessidade de pedir ajuda à troika. 
Como é possível não se ter aprendido a lição e repetir exatamente os mesmos erros? Pode-se criticar as opções do anterior executivo e da troika, propondo uma terceira via, mas o que não é admissível é o regresso ao passado, porque não há quaisquer dúvidas de que foi péssimo. 
O segundo erro estratégico consiste em, dentro da procura interna, dar primazia ao consumo privado em vez de o conferir ao investimento, quando é exatamente o oposto do que o país necessita.
No Orçamento para 2016 e, sobretudo, na sua execução há uma escolha política e económica totalmente inaceitável. O governo escolheu repor os mais altos vencimentos dos funcionários públicos, estimulando o consumo privado e as importações, já que é nestes escalões de rendimento que se concentra a compra de bens de consumo duradouro, cuja componente importada é de 90%.
Como a receita fiscal está muito abaixo do orçamentado, o executivo recorreu ao estratagema de cortar o investimento público em 20% quando este, de acordo com a versão final do Orçamento, deveria crescer 12%. Do ponto de vista económico, isto não podia ser mais calamitoso porque é exatamente o oposto do que necessitamos. Do ponto de vista político, é absolutamente escandaloso que o governo prejudique o interesse geral (em princípio, beneficiado pelo investimento público) em benefício dos que usufruem os mais altos salários na função pública. 
Ser de esquerda hoje, em Portugal, já não é preocupar-se com os mais necessitados mas antes estar ao serviço das corporações públicas? Não têm vergonha?
Pois a catastrófica política económica do governo já está a produzir péssimos resultados, como é patente nos dados do PIB do 1.o semestre, a crescer apenas 0,8%, muito abaixo da média da zona euro (1,5%). O investimento está em queda assinalável, diretamente por ação do executivo.
A procura interna cresceu zero no 2.o trimestre, o que é extraordinário para um governo que tinha como estratégia basear-se nela. A estratégia em si não podia ser mais errada, mas o seu fracasso é (quase) total.
Há uma área, o emprego, em que os números ainda não são preocupantes, porque esta variável costuma estar desfasada 2 ou 3 trimestres do ciclo económico. Mas é altamente provável que no 3.o ou 4.o trimestre se assista, infelizmente, a uma subida do desemprego, o que deve ser dinamite política para o governo e deverá constituir a reprovação final da sua desastrosa política económica. 
Como a política económica está errada e a abrandar a economia, é evidente que isso vai ter implicações orçamentais num Orçamento que se caracterizou sempre, desde o esboço até ao documento final, por ser muito fantasioso.
Vamos ver até onde irá o desastre, havendo fundadas suspeitas de que a meta orçamental de 2016 não será alcançada.