sábado, 15 de julho de 2017

Religião: uma forma retrógrada e opressora?

LUÍS FERREIRA DO AMARAL           PÚBLICO        12.07.17



Numa declaração de há algum tempo atrás, a actriz britânica Emma Thompson revelou sem ambiguidades um pensamento que talvez exprima também o sentir de alguns quadrantes da nossa sociedade de hoje: “Sou ateia. Talvez possa ser apelidada de anárquica libertária. Encaro a religião com receio e com suspeita. Não será suficiente dizer que não acredito em Deus. A verdade é que encaro esse sistema como opressivo: sinto-me ofendida com algumas das coisas que são ditas na Bíblia e no Corão, e refuto-as.”

Parece pouco discutível que algumas das passagens da Bíblia (ou pelo menos do Antigo Testamento) podem parecer chocantes — pelo menos para quem as leia a partir de um olhar do século XXI. Desde logo, pela violência ou crueza com que, por vezes, se pode referir a outros seres humanos.

Mas poder-nos-íamos questionar também: por que é que isso nos parecerá hoje chocante? Esta questão faz tanto mais sentido quanto, durante muito tempo, causar sofrimento a outros seres humanos parecia ser socialmente aceitável entre nós. De facto, talvez não seja a despropósito recordar que, há menos de 20 séculos atrás, nesta mesma Europa, uma das formas de espectáculo recreativo de massas consistia em ver pessoas serem devoradas por leões.


Se, no passado (e durante séculos), isso foi visto como algo de normal, porque será que na nossa sociedade nos passámos agora a sentir “ofendidos”, e a “refutar” a violência sobre outros? Que terá acontecido para que, entre nós, tenha surgido esta noção de dignidade humana — que antes não existia? E por que será que o próprio conceito de “Direitos Humanos” veio a surgir precisamente nesta região do mundo, e não noutra?

Terá sido por acaso que tenha surgido precisamente numa região que, durante séculos, foi recebendo o influxo de uma tradição religiosa que vê o ser humano como “imagem e semelhança de Deus” (algo que encontramos logo no 1.º capítulo do 1.º livro da Bíblia)?

Terá sido por acaso que a consciência social de solidariedade para com os mais fracos tenha emergido no contexto do cristianismo, uma religião que reconhece e serve a Deus na figura de um ser humano?

Talvez mais importante do que ler da Bíblia passagens soltas, anacronicamente, será tentar compreender o real impacto que, ao longo dos séculos, o influxo das Escrituras e da mensagem cristã foi tendo na evolução das nossas sociedades, na evolução da nossa mentalidade e cultura europeias.

Irónico parece ser entretanto que, em nome da dignidade humana, se possa hoje ter chegado ao ponto de desprezar as próprias referências que possibilitaram que, entre nós, a consciência sobre essa mesma dignidade se pudesse ter desenvolvido.

Numa pretensa atitude de emancipação, podemos pensar que, a esse respeito, nada mais teremos já a aprender. Uma rápida vista de olhos a qualquer jornal hoje, porém, será suficiente para cair na conta do imenso caminho que temos ainda por percorrer: tensões e violência nas nossas sociedades, desigualdades, crise de sentido, crise no projecto europeu, populismo crescente...

Para onde queremos caminhar? Para onde nos querem conduzir: alguém saberá exactamente? (para onde nos levará, por exemplo, uma tal via “anarco-libertária”?). Ou acreditaremos porventura que o aprofundamento do conceito de direitos humanos é algo de inevitável, algo de sempre irreversível nas nossas sociedades?

Bem presente entre nós estarão ainda as imagens dos horrores causados pelos regimes ateus que, no século passado, pretenderam voluntariosamente “construir o Homem novo”, excluindo para tal, precisamente, qualquer tipo de referência a um Criador, ou à inspiração judaico-cristã.

O nosso país prepara-se agora para debater uma eventual legalização da eutanásia. É de notar que a eutanásia (tal como o aborto) era uma prática que também não parecia levantar grandes problemas de consciência a esses regimes totalitários experimentados no século XX, antes pelo contrário.

Pelo menos em assuntos relativos à vida humana, talvez não fosse despiciendo procurar manter alguma prudência e humildade. E, sejamos crentes ou não, quem sabe: talvez possamos ter ainda algo a aprender com a dinâmica de uma sabedoria milenar; talvez possamos ter ainda algo a aprender da inspiração dessa mesma tradição que possibilitou que chegássemos onde chegámos, no que à consciência sobre a dignidade humana diz respeito.
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